Como a aromaterapia age no cérebro: olfato, emoção e memória - Camila Castellan

A aromaterapia age no cérebro por um caminho único: as moléculas do aroma ativam receptores no nariz, o sinal vai para o bulbo olfatório e de lá segue direto para a amígdala e o córtex piriforme, sem passar pelo tálamo, como acontece com os outros sentidos.[2][3] Por isso um aroma mexe com a emoção e traz memórias em segundos.[4][5] Estudos mostram que aromas como lavanda e alecrim mudam a atividade elétrica do cérebro, o humor e o estado de alerta,[6][7] e é esse caminho que a aromaterapia usa no cuidado da ansiedade, do sono e da saúde mental.

Camila Castellan

Por Camila CastellanBiomédica, neurocientista e aromaterapeuta clínica · Publicado em 01/10/2026

Resumo rápido

O olfato e o cérebro em uma olhada

Onde começaem receptores do nariz, de uma família enorme de genes[1]
O atalhoo cheiro chega à amígdala sem passar pelo tálamo[2]
Emoçãoa amígdala responde à intensidade emocional do cheiro[4]
Memóriamemórias trazidas por cheiros são mais emocionais[5]
Efeito no corpolavanda relaxa e alecrim deixa mais alerta, no EEG[6]
Saúde mentalolfato reduzido está associado à depressão[10]
Envelhecimentoaromas à noite melhoraram a memória de idosos[9]
Na práticaa base da aromaterapia por inalação

O caminho do cheiro até o cérebro

Tudo começa no alto do nariz, no epitélio olfatório. Ali ficam milhões de neurônios com receptores capazes de reconhecer moléculas no ar. A descoberta dessa família de receptores, feita por Linda Buck e Richard Axel em 1991, rendeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2004 e mostrou que eles formam uma das maiores famílias de genes do nosso corpo.[1]

Cada receptor reconhece partes de certas moléculas. Um óleo essencial, com dezenas de moléculas, ativa uma combinação de receptores, como um código. Esse código chega ao bulbo olfatório, que organiza a informação em pequenas estruturas chamadas glomérulos.[2]

O caminho do cheiro, passo a passo

EtapaOnde aconteceO que faz
1epitélio olfatório (nariz)receptores reconhecem as moléculas do aroma[1]
2bulbo olfatórioorganiza o código do cheiro[2][3]
3córtex piriforme e amígdalareconhecem o cheiro e dão o tom emocional, sem passar pelo tálamo[2]
4córtex orbitofrontalavalia se o cheiro é agradável e aprende associações[2][4]
5hipocampo e córtex entorrinalligam o cheiro à memória[2][5]
6hipotálamoconversa com hormônios, fome e sistema nervoso autônomo[3]
Infográfico: o caminho do aroma até o cérebro, do nariz ao bulbo olfatório, amígdala, hipocampo e hipotálamo
O caminho do aroma até o cérebro, sem passar pelo tálamo.

Por que o cheiro mexe tanto com a emoção

Visão, audição e tato passam primeiro pelo tálamo, uma espécie de central de triagem, antes de chegar às áreas que dão significado ao que sentimos. O olfato é diferente: o bulbo olfatório se comunica direto com a amígdala e o córtex piriforme.[2] A amígdala é uma das principais estruturas da emoção, e é por isso que um cheiro pode acalmar, alegrar ou incomodar antes mesmo de a gente pensar sobre ele.

Um estudo clássico com tomografia mostrou que um cheiro muito desagradável ativou fortemente as duas amígdalas e o córtex orbitofrontal, e que a atividade da amígdala acompanhava o quanto a pessoa achava o cheiro ruim.[4] Uma revisão sobre olfato e emoção resume: as regiões que processam os cheiros e as que processam as emoções são, em grande parte, as mesmas, como a amígdala, o hipocampo, a ínsula, o cíngulo anterior e o córtex orbitofrontal.[3]

Cheiro e memória: por que um aroma nos leva ao passado

Quem nunca sentiu um perfume na rua e lembrou na hora de alguém? Esse fenômeno ficou conhecido como “efeito Proust”, por causa do escritor francês que descreveu memórias de infância despertadas pelo aroma de um bolinho.

A neurociência confirma. Num estudo com ressonância magnética, memórias pessoais despertadas por um cheiro ativaram mais a amígdala e o hipocampo do que as mesmas memórias despertadas por uma imagem, e foram vividas com mais emoção.[5] Isso acontece porque o caminho do olfato chega rápido às áreas da memória de longo prazo.[2]

Na aromaterapia clínica, isso tem uma consequência prática: a história da pessoa com cada aroma importa. Um óleo ligado a uma lembrança boa pode acalmar; o mesmo óleo ligado a uma memória difícil pode incomodar.

O que o cheiro faz no corpo e nas ondas cerebrais

O cheiro não muda só a emoção: ele muda a atividade elétrica do cérebro, medida pelo eletroencefalograma (EEG).

Estudos com aromas, cérebro e comportamento

EstudoQuem participouO que foi feitoResultado
Diego et al., 1998[6]40 adultos3 minutos de aroma de lavanda ou alecrimlavanda: mais relaxamento, humor melhor e cálculos mais rápidos e corretos; alecrim: mais alerta e menos ansiedade
Sowndhararajan e Kim, 2016[7]revisão de estudos com EEGdiversos aromasaromas mudam as ondas cerebrais ligadas a relaxamento e atenção
Harada et al., 2018[8]camundongosaroma de linalol, molécula da lavandaefeito ansiolítico que dependia do olfato e passava pelo sistema GABA
Woo et al., 2023[9]43 idososum aroma diferente por noite, 2 horas no difusor, por 6 mesesgrande melhora num teste de memória e mudanças numa via cerebral ligada à memória

O estudo com camundongos é especialmente interessante: quando os animais não tinham olfato, o efeito calmante do linalol desaparecia.[8] Isso sugere que boa parte do efeito acontece pelo próprio cheiro, e precisa ser aprofundado em pessoas. Em humanos, a lavanda tem estudos consistentes na ansiedade.[13] No estudo com idosos, vale a transparência: um dos autores recebeu remuneração de uma empresa do setor de fragrâncias.[9]

Moléculas e neurotransmissores

Além do caminho pelo olfato, as moléculas dos óleos essenciais também são absorvidas pelos pulmões e pela pele, chegando à corrente sanguínea em pequenas quantidades. Por isso a aromaterapia estuda duas vias de ação ao mesmo tempo: a do cheiro, rápida e emocional, e a da molécula, mais lenta e farmacológica.

Algumas moléculas e o que os estudos sugerem

MoléculaOnde apareceO que os estudos sugerem
Linalollavanda, manjericão, coentroefeito calmante pelo sistema GABA[8]
Acetato de linalilalavanda, bergamota, sálvia-esclareiarelaxamento, junto com o linalol[13]
1,8-cineolalecrim, eucaliptoestado de alerta e atenção[6]
Limonenolaranja, limão, tangerinaaromas cítricos associados a bom humor
Mentolhortelã-pimentasensação de frescor e alerta

Os mecanismos de cada molécula vêm de estudos de laboratório, em animais e em pessoas, e muitos ainda precisam ser aprofundados. O que já está claro é que a escolha do óleo e da quantidade muda o efeito.

Infográfico: as duas vias de ação da aromaterapia, o aroma pelo olfato e a molécula absorvida
Duas vias de ação: o aroma e a molécula.

Olfato e saúde mental

A relação entre olfato e emoção funciona nos dois sentidos. Uma meta-análise de 2026, com mais de 187 mil pessoas, mostrou que quem percebe o próprio olfato reduzido tem mais chance de ter depressão, principalmente na terceira idade.[10] A perda de olfato também costuma afetar a qualidade de vida, o prazer de comer e a segurança no dia a dia.[3]

No autismo, o olfato funciona de um jeito próprio: crianças autistas ajustam menos a força da inspiração conforme o cheiro, e essa diferença acompanha as diferenças sociais.[15] Esses achados mostram que o olfato não é um detalhe: ele está ligado ao humor, ao comportamento e à forma como nos relacionamos.

Olfato, envelhecimento e memória

Com a idade, o olfato tende a diminuir. Em idosos, a dificuldade de identificar cheiros está associada ao declínio da memória e ao risco de demência, e por isso ela é estudada como um sinal de alerta precoce.[12]

A boa notícia é que o olfato pode ser estimulado. No estudo com idosos, um aroma diferente por noite no difusor, por seis meses, melhorou a memória.[9] E o treino olfativo, cheirar alguns aromas todos os dias por algumas semanas, ajudou a recuperar o olfato em 20% a 30% em pessoas com perda olfativa, segundo uma revisão de ensaios clínicos.[11]

Nível de evidência por tema

O que a pesquisa mostra hoje

TemaTipo de estudoO que sugere
Caminho do cheiro até a emoçãoanatomia e neuroimagem[2][3][4]bem estabelecido
Cheiro e memória emocionalneuroimagem[5]bem estabelecido, com estudos pequenos
Aromas e ondas cerebraisensaios e revisão[6][7]efeitos consistentes de relaxamento e alerta
Lavanda e ansiedademeta-análise[13]efeito positivo
Aromas e sonorevisão de ensaios[14]efeito positivo na maioria dos estudos
Aromas e memória em idososensaio clínico[9]resultado promissor, a confirmar
Linalol e GABAestudos em animais[8]sugere o mecanismo; precisa ser aprofundado em pessoas

Como usar isso no dia a dia

Veja também como usar o difusor e em quanto tempo o óleo essencial faz efeito.

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Mitos e verdades

O que é mito e o que é verdade

FraseO que a ciência mostra
“Aromaterapia é só cheiro bom”o cheiro muda a atividade cerebral, o humor e o estado de alerta[6][7]
“Todo mundo reage igual a um aroma”a reação depende da memória e da história de cada pessoa com aquele cheiro[5]
“Quanto mais forte, melhor”aromas fortes demais ativam respostas de aversão[4]
“Perder o olfato não tem importância”olfato reduzido está associado à depressão e ao declínio da memória[10][12]
“Só funciona se a pessoa acreditar”o efeito calmante do linalol apareceu em animais e dependia do olfato[8]

O olfato na aromaterapia clínica

Na prática da Camila, entender o caminho do cheiro no cérebro muda a forma de montar um plano. A consulta pergunta quais aromas a pessoa ama e quais rejeita, que memórias eles trazem, como está o sono e o humor, e quais medicamentos ela usa. A partir disso, o plano escolhe aromas diferentes para cada momento do dia e usa o olfato como ponte para a regulação emocional, sempre como cuidado complementar, junto do acompanhamento médico e psicológico.

Veja como isso se aplica a cada tema no guia Aromaterapia na saúde mental.

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Perguntas frequentes

Aromaterapia funciona mesmo?

Funciona como cuidado complementar: os estudos mostram que aromas mudam a atividade cerebral, o humor e o estado de alerta, com efeitos na ansiedade e no sono.[6][13][14]

Como o cheiro chega ao cérebro?

As moléculas ativam receptores no nariz, o sinal vai ao bulbo olfatório e segue direto para a amígdala e o córtex piriforme, sem passar pelo tálamo.[1][2]

Por que os cheiros trazem lembranças?

Porque o caminho do olfato chega rápido à amígdala e ao hipocampo, áreas da emoção e da memória. Memórias trazidas por cheiros são mais emocionais.[2][5]

O cheiro pode mudar o humor?

Sim. Num estudo, 3 minutos de aroma de lavanda melhoraram o humor e o relaxamento, e o alecrim aumentou o estado de alerta.[6]

Qual parte do cérebro processa os cheiros?

O bulbo olfatório, o córtex piriforme, a amígdala, o córtex orbitofrontal, o hipocampo e o hipotálamo, entre outras.[3]

Como a aromaterapia age no cérebro?

Pelo caminho do olfato, que chega às áreas da emoção, e pelas moléculas absorvidas pelo corpo. O linalol da lavanda, por exemplo, age pelo sistema GABA em estudos com animais.[8]

Perder o olfato afeta a saúde mental?

O olfato reduzido está associado a mais depressão, principalmente em idosos.[10]

Dá para treinar o olfato?

Sim. O treino olfativo, cheirar alguns aromas todos os dias, ajudou a recuperar o olfato em pessoas com perda olfativa.[11]

Aromas ajudam a memória?

Num ensaio com idosos, um aroma diferente por noite no difusor por seis meses melhorou a memória. É um resultado promissor, que precisa ser confirmado.[9]

Em quanto tempo o cheiro age?

O cérebro reage ao cheiro em menos de um segundo, e mudanças no humor e no EEG aparecem em poucos minutos.[6][15]

Referências

  1. Buck L, Axel R. A novel multigene family may encode odorant receptors: a molecular basis for odor recognition. Cell. 1991;65(1):175-187. doi:10.1016/0092-8674(91)90418-x
  2. Kadohisa M. Effects of odor on emotion, with implications. Front Syst Neurosci. 2013;7:66. doi:10.3389/fnsys.2013.00066
  3. Soudry Y, Lemogne C, Malinvaud D, Consoli SM, Bonfils P. Olfactory system and emotion: common substrates. Eur Ann Otorhinolaryngol Head Neck Dis. 2011;128(1):18-23. doi:10.1016/j.anorl.2010.09.007
  4. Zald DH, Pardo JV. Emotion, olfaction, and the human amygdala: amygdala activation during aversive olfactory stimulation. Proc Natl Acad Sci U S A. 1997;94(8):4119-4124. doi:10.1073/pnas.94.8.4119
  5. Herz RS, Eliassen J, Beland S, Souza T. Neuroimaging evidence for the emotional potency of odor-evoked memory. Neuropsychologia. 2004;42(3):371-378. doi:10.1016/j.neuropsychologia.2003.08.009
  6. Diego MA, Jones NA, Field T, et al. Aromatherapy positively affects mood, EEG patterns of alertness and math computations. Int J Neurosci. 1998;96(3-4):217-224. doi:10.3109/00207459808986469
  7. Sowndhararajan K, Kim S. Influence of fragrances on human psychophysiological activity: with special reference to human electroencephalographic response. Sci Pharm. 2016;84(4):724-751. doi:10.3390/scipharm84040724
  8. Harada H, Kashiwadani H, Kanmura Y, Kuwaki T. Linalool odor-induced anxiolytic effects in mice. Front Behav Neurosci. 2018;12:241. doi:10.3389/fnbeh.2018.00241
  9. Woo CC, Miranda B, Sathishkumar M, et al. Overnight olfactory enrichment using an odorant diffuser improves memory and modifies the uncinate fasciculus in older adults. Front Neurosci. 2023;17:1200448. doi:10.3389/fnins.2023.1200448
  10. Bode H, Sjöberg L, Ekström I. Olfactory impairment and depression: a systematic review and meta-analysis. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2026;152(9):841-850. doi:10.1001/jamaoto.2026.1758
  11. Moura GOC, da Silva ALS, de Santana FRT, Walker CIB. Classical olfactory training for smell restoration: a systematic review. Int Forum Allergy Rhinol. 2025;15(4):428-437. doi:10.1002/alr.23564
  12. Devanand DP. Olfactory identification deficits, cognitive decline, and dementia in older adults. Am J Geriatr Psychiatry. 2016;24(12):1151-1157. doi:10.1016/j.jagp.2016.08.010
  13. Donelli D, Antonelli M, Bellinazzi C, Gensini GF, Firenzuoli F. Effects of lavender on anxiety: a systematic review and meta-analysis. Phytomedicine. 2019;65:153099. doi:10.1016/j.phymed.2019.153099
  14. Lillehei AS, Halcon LL. A systematic review of the effect of inhaled essential oils on sleep. J Altern Complement Med. 2014;20(6):441-451. doi:10.1089/acm.2013.0311
  15. Rozenkrantz L, Zachor D, Heller I, et al. A mechanistic link between olfaction and autism spectrum disorder. Curr Biol. 2015;25(14):1904-1910. doi:10.1016/j.cub.2015.05.048