
A ficha de anamnese em aromaterapia é o roteiro da primeira consulta. Ela reúne a queixa principal e o objetivo da pessoa, o histórico de saúde, os medicamentos em uso, as alergias, a fase da vida (gestação, amamentação, idade), o sono, as emoções, a rotina e a relação com os aromas. É com essas informações que a aromaterapeuta escolhe óleos, vias de uso e diluições com segurança e consegue medir a evolução nos retornos. Abaixo está um modelo com as 10 seções que uma ficha clínica precisa ter.

Para que serve a anamnese na aromaterapia
Óleos essenciais são substâncias concentradas. O mesmo óleo que ajuda uma pessoa pode ser inadequado para outra, por causa de uma gestação, de uma doença como a epilepsia ou a asma, de uma pele sensível ou de um medicamento de uso contínuo.[2][3] A anamnese existe para que a escolha seja feita para aquela pessoa, e não pela fama do óleo.
Ela cumpre quatro funções:
- Segurança: identificar o que contraindica um óleo, uma via de uso ou uma diluição.
- Personalização: entender o que a pessoa quer melhorar e o que faz sentido na rotina dela.
- Ponto de partida: registrar como a pessoa está hoje, para comparar nos retornos.
- Registro profissional: documentar o que foi avaliado e orientado.
Por isso, a anamnese é um dos pilares de uma formação em aromaterapia clínica, ao lado da química, da farmacologia e da segurança.
Modelo de ficha de anamnese: as 10 seções
Veja o que perguntar em cada seção:
1. Identificação
Nome, data de nascimento, contato, profissão e quem indicou. Em atendimentos de crianças, registre também o nome do responsável, a idade exata e o peso.
2. Queixa principal e objetivo
“O que te trouxe aqui?”, “Desde quando isso acontece?”, “O que piora e o que melhora?” e “O que você gostaria que estivesse diferente daqui a algumas semanas?”. Peça uma nota de 0 a 10 para a intensidade da queixa. Essa nota vira a sua régua nos retornos.
3. Histórico de saúde
Diagnósticos já feitos por médicos, acompanhamentos em andamento (médico, psicólogo, outros terapeutas), cirurgias e internações. Peça também os exames recentes que a pessoa tiver: eles ajudam a entender o caso. Pergunte diretamente sobre condições que mudam a escolha dos óleos: epilepsia, asma e rinite, pressão alta, doenças de pele, alterações de coagulação e câncer em tratamento.[2][4][5]
4. Medicamentos e suplementos
Nome, dose, horário, há quanto tempo usa e quem prescreveu, incluindo fitoterápicos, florais e suplementos. Se a pessoa não lembra, peça uma foto da receita ou do rótulo. Vale pedir também os exames de sangue mais recentes, que ajudam a enxergar o quadro completo. A aromaterapeuta registra, mas não altera nem sugere suspender nenhum medicamento: essa decisão é sempre do médico.
5. Alergias e sensibilidades
Alergias a plantas, a cosméticos, a perfumes e reações anteriores a óleos essenciais, como vermelhidão, coceira ou dor de cabeça. Alguns óleos estão entre as causas conhecidas de dermatite de contato.[6]
6. Fase da vida
Gestação (e de quantas semanas), amamentação, tentativa de engravidar, menopausa. Em crianças e idosos, a escolha dos óleos e a diluição mudam.[2]
7. Sono
Horário em que deita e horário em que realmente consegue dormir (deitar é uma coisa, dormir é outra), despertares, a que horas acorda, como acorda (disposto ou “sem conseguir levantar”), sonhos e uso de telas à noite. Também com nota de 0 a 10. Uma pergunta que revela muito: como estão a motivação e a fome logo ao acordar?
8. Emoções e estresse
Como está o humor, o que tem gerado preocupação, acontecimentos recentes (luto, separação, mudança de emprego) e como a pessoa lida com o estresse. É aqui que aparecem muitos dos sinais de alerta que pedem encaminhamento.
9. Rotina e ambiente
Trabalho, horários, atividade física, exposição ao sol, horários das refeições (pula o café? chega com muita fome à noite? vontade de doce?), funcionamento do intestino, quem mora na casa (bebês, gestantes, pessoas com asma) e animais de estimação, já que alguns óleos difundidos no ambiente não são indicados perto de pets, principalmente gatos.
10. Relação com os aromas
Cheiros de que gosta e de que não gosta, memórias ligadas a aromas, óleos e produtos que já usa e como usa. Um aroma rejeitado dificilmente será usado, por melhor que seja a indicação.
Consentimento
Feche a ficha com um termo simples, assinado ou aceito por escrito, dizendo que a aromaterapia é um tratamento complementar, que não substitui o tratamento médico e que a avaliação da aromaterapeuta não substitui o diagnóstico médico.
As perguntas que não podem faltar (e por quê)
| Pergunta | Por que importa |
|---|---|
| Você usa algum medicamento? | Alguns óleos podem somar efeito ou interagir com remédios, principalmente pela via oral.[2] |
| Você tem ou já teve convulsões? | Óleos ricos em cânfora, tujona e 1,8-cineol podem favorecer crises em quem tem epilepsia.[4] |
| Você tem asma ou rinite? | Compostos voláteis no ar podem desencadear sintomas em quem é sensível.[5] |
| Você está grávida ou amamentando? | Alguns óleos devem ser evitados nessas fases, e a diluição é menor.[2] |
| Já teve reação na pele com cosméticos ou óleos? | Indica mais risco de irritação e de alergia de contato.[6] |
| Para quem é o atendimento? Qual a idade? | Crianças têm pele e vias aéreas mais sensíveis e pedem óleos e doses próprios da idade.[2] |
Para aprofundar, veja quem não pode fazer aromaterapia.
Sinais de alerta: quando encaminhar
A avaliação da aromaterapeuta não substitui o diagnóstico do médico ou do psicólogo. Por isso, ela precisa reconhecer quando uma queixa pede avaliação de outro profissional antes, ou junto, do cuidado com os óleos. Encaminhe para o médico ou o psicólogo quando aparecer:
Encaminhar não é perder o paciente. É o que dá segurança a ele e credibilidade ao seu trabalho.

Anamnese não é só ficha: como conduzir a conversa
A ficha organiza, mas o que faz a anamnese funcionar é a escuta. Algumas práticas ajudam:
- Comece pelas perguntas abertas. “Me conta o que está acontecendo” rende mais do que uma lista de sim ou não.
- Deixe a ficha para confirmar. Use as perguntas fechadas no fim, para não esquecer nada.
- Com adolescentes, abra espaço para falar sozinho. Muitas vezes a parte mais importante do caso só aparece sem os pais na sala.
- Anote as palavras da pessoa. “Eu travo antes de dormir” diz mais do que “insônia”.
- Reserve tempo. A primeira consulta costuma ser a mais longa, porque é nela que a história inteira aparece.
Um exemplo de como uma pergunta a mais muda todo o plano está no caso de dermatite atópica discutido em protocolo ou planejamento de uso.
Como usar a anamnese nos retornos
Nos retornos, volte às mesmas perguntas e às mesmas notas. Se o sono estava em 3 e foi para 6, você tem um dado concreto. Se nada mudou, é hora de rever o plano, e não de acrescentar mais óleos. Atualize também a ficha sempre que houver um medicamento novo, uma gestação ou um diagnóstico.
É esse acompanhamento que permite trabalhar com planos com começo, meio e fim, em vez de sessões avulsas. Entenda como isso muda a sua prática em o que faz um aromaterapeuta.

Cuidados com os dados: LGPD
Informações sobre saúde são dados pessoais sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados.[7] Na prática, isso significa:
- pedir o consentimento da pessoa para registrar e guardar as informações;
- usar os dados só para o atendimento;
- guardar as fichas em local seguro, com senha, e não em grupos de mensagem;
- nunca expor um caso com dados que identifiquem a pessoa, nem em aula, nem nas redes sociais.
Onde se aprende a conduzir uma anamnese clínica
Uma ficha bem feita ajuda, mas não substitui o raciocínio clínico: saber o que fazer com cada resposta, principalmente quando a pessoa usa antidepressivos, ansiolíticos ou outros medicamentos. Muitas aromaterapeutas têm certificados e mesmo assim travam na hora do atendimento por falta dessa prática.
Na Mentoria ATP, a formação profissional em aromaterapia clínica aplicada à saúde mental que Camila Castellan conduz, a anamnese é treinada com casos reais discutidos em grupo, com dados alterados para preservar as pessoas atendidas. Se você quer começar do zero, veja o guia completo para ser aromaterapeuta.

- ✓Raciocínio clínico em saúde mental: da avaliação ao plano de cuidado personalizado
- ✓Segurança para atender quem usa medicamentos psiquiátricos
- ✓Casos clínicos reais discutidos em encontros ao vivo quinzenais
- ✓Como estruturar, divulgar e valorizar os seus atendimentos, sem prometer cura
- O que faz um aromaterapeuta e como funciona uma consulta
- Atendimento online de aromaterapia: funciona? Como fazer com segurança
- Ansiedade ou depressão? Por que o raciocínio clínico vem antes do óleo essencial
- Protocolo ou planejamento de uso? O que um caso de dermatite atópica ensina sobre raciocínio clínico na aromaterapia
- Quem não pode fazer aromaterapia? Contraindicações, uso diário e frequência
Perguntas frequentes
Existe uma ficha de anamnese oficial para aromaterapia?
Não. A aromaterapia faz parte das práticas integrativas do SUS desde 2018,[1] mas não existe um modelo oficial de ficha. Cada profissional monta a sua, e as 10 seções deste artigo cobrem o que uma ficha clínica precisa ter.
A ficha de anamnese para crianças é diferente?
Sim. Ela é feita com os pais e inclui a idade exata, o peso, o desenvolvimento, a rotina de manhã, tarde e noite, onde e a que horas a criança dorme, a alimentação (e a seletividade), a sensibilidade a sons, toques, tecidos e cheiros, as terapias, a escola e os medicamentos (com quem acompanha a criança). A escolha dos óleos e a diluição são próprias da idade, e óleos essenciais nunca devem ser ingeridos por crianças.
Dá para fazer a anamnese online?
Dá. A anamnese é uma conversa e funciona bem por vídeo. A ficha pode ser enviada antes, para a pessoa adiantar dados como medicamentos e alergias, e completada durante a consulta.
A aromaterapeuta pode analisar exames?
Pode. Os exames que a pessoa já tem ajudam a entender o caso e a planejar o uso dos óleos com mais segurança. Essa análise é feita do ponto de vista da aromaterapia e não dispensa o médico, que faz o diagnóstico médico e conduz o tratamento.
Preciso fazer anamnese para indicar um óleo para uma amiga?
Pelo menos as perguntas de segurança: medicamentos, gestação, epilepsia, asma, alergias e idade. Sem elas, a indicação fica no escuro.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 702, de 21 de março de 2018. Inclui novas práticas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), entre elas a aromaterapia.
- Tisserand R, Young R. Essential Oil Safety: A Guide for Health Care Professionals. 2. ed. Edimburgo: Churchill Livingstone/Elsevier; 2014.
- Posadzki P, Alotaibi A, Ernst E. Adverse effects of aromatherapy: a systematic review of case reports and case series. International Journal of Risk & Safety in Medicine. 2012;24(3):147-161. doi:10.3233/JRS-2012-0568
- Bahr TA, Rodriguez D, Beaumont C, Allred K. The effects of various essential oils on epilepsy and acute seizure: a systematic review. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2019;2019:6216745. doi:10.1155/2019/6216745
- Levy J, Neukirch C, Larfi I, Demoly P, Thabut G. Tolerance to exposure to essential oils exposure in patients with allergic asthma. Journal of Asthma. 2019;56(8):853-860. doi:10.1080/02770903.2018.1493601
- de Groot A, Schmidt E. Essential oils, part V: peppermint oil, lavender oil, and lemongrass oil. Dermatitis. 2016;27(6):325-332. doi:10.1097/DER.0000000000000218
- Brasil. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), art. 5º, II, e art. 11.



