
O mesmo óleo essencial pode acalmar uma pessoa e agitar outra porque o efeito de um aroma não depende só da química do óleo. Depende também da memória que aquele aroma desperta[6], do que a pessoa espera sentir[2][3], do estado emocional em que ela está[5], de quanto ela gosta do aroma[4], dos genes dos seus receptores olfativos[7][8] e até da cultura em que cresceu[9]. Por isso, na aromaterapia clínica, a escolha do óleo começa pela pessoa, e não pela lista de “óleos calmantes”.

Resumo rápido
Neste artigo você vai entender, com estudos, os seis motivos que fazem um mesmo óleo ter efeitos diferentes, por que “acalmar” e “despertar” não são opostos, como descobrir o aroma que funciona para você e como a aromaterapeuta clínica usa isso para escolher o óleo.
O aroma não age sozinho
É comum ver listas de “óleos calmantes” e “óleos estimulantes”, como se cada óleo tivesse um efeito fixo, igual para todo mundo. Os estudos mostram um quadro mais interessante. Uma revisão clássica sobre os efeitos dos aromas no humor e no corpo concluiu que boa parte do efeito vem de fatores psicológicos, como a expectativa, o gostar ou não do aroma e as associações que ele desperta, e não apenas da ação química das moléculas[1].
Isso não significa que “é tudo coisa da cabeça”. As moléculas aromáticas também têm efeitos próprios: estudos mostram que alguns óleos aumentam e outros diminuem a atividade do sistema nervoso simpático, o sistema do “alerta”[12], e mudam o padrão das ondas cerebrais[13]. O ponto é que esses efeitos químicos se somam ao que acontece no cérebro de cada pessoa, e o resultado final pode ser bem diferente de uma pessoa para outra.
Para entender por que o olfato tem esse poder, vale lembrar o caminho do aroma: do nariz, a informação vai direto para regiões do cérebro ligadas à emoção e à memória, como a amígdala e o hipocampo, antes mesmo de a pessoa nomear o que sentiu. Veja como a aromaterapia age no cérebro.

1. A memória que o aroma desperta
O olfato é o sentido mais ligado às lembranças. Uma revisão sobre memórias evocadas por aromas mostrou que aromas ligados a lembranças boas aumentam emoções positivas, reduzem o humor negativo e até diminuem marcadores de estresse no corpo[6]. O contrário também acontece: um aroma associado a uma fase difícil, a um hospital ou a uma pessoa com quem a relação foi ruim pode trazer de volta o desconforto daquele momento.
Na prática clínica, isso aparece o tempo todo. A lavanda, considerada o óleo calmante por excelência, pode ser lembrada como “o cheiro da casa da avó” por uma pessoa e como “o cheiro do produto de limpeza do hospital” por outra. Para a primeira, ela tende a acalmar. Para a segunda, pode deixar a pessoa tensa.
A boa notícia é que essa associação também pode ser construída. Quando um aroma acompanha sempre um momento de calma, como a respiração lenta antes de dormir, o cérebro aprende a ligar aquele aroma à calma. É o que chamamos de aroma âncora[6].
2. O que você espera sentir
A expectativa muda a resposta ao aroma, e de forma mensurável. Num estudo com 90 mulheres, as pesquisadoras disseram a algumas participantes que o aroma seria relaxante e a outras que seria estimulante. O coração e o suor da pele responderam conforme a sugestão: o mesmo aroma acalmou quem esperava relaxar e ativou quem esperava ficar alerta[3].
Outro estudo, com 96 mulheres, testou lavanda, placebo e nenhum aroma depois de uma tarefa estressante. O aroma em si não mudou a resposta da pele; o que mudou foi a expectativa criada pelas instruções[2]. E de um jeito curioso: quem foi avisada de que o aroma poderia atrapalhar o relaxamento relaxou mais.
Isso não quer dizer que a aromaterapia “é só placebo”. Quer dizer que a forma como o aroma é apresentado, o ritual e a confiança na profissional fazem parte do efeito, e que uma pessoa que chega desconfiada ou com medo de “passar mal com o aroma” pode reagir de outra forma. Por isso, na consulta, explicar o porquê de cada escolha faz diferença.
3. O estado em que você está
O mesmo aroma é percebido de forma diferente dependendo do estado emocional da pessoa. Num estudo com ressonância magnética, os pesquisadores induziram ansiedade nos participantes. Depois disso, aromas que antes eram neutros passaram a ser percebidos como desagradáveis, e a amígdala, a região do medo, passou a participar mais do processamento do olfato[5].
Na prática, isso explica por que um aroma que a pessoa adora num dia tranquilo pode incomodar no meio de uma crise. Também explica por que pessoas com ansiedade ou depressão às vezes se tornam mais sensíveis a cheiros do dia a dia. Os autores sugerem que esse ciclo, em que a emoção negativa deixa os aromas mais desagradáveis, pode alimentar a ansiedade[5]. Para quem se incomoda muito com cheiros, veja sensibilidade a cheiros.
Uma consequência prática: escolha e teste os aromas num momento tranquilo, e não no pico da crise. Assim, o aroma tem chance de ser associado à calma desde o começo.
4. Gostar ou não do aroma
O quanto a pessoa gosta de um aroma está ligado à resposta do corpo. Num estudo com seis aromas, a nota de prazer que cada pessoa deu ao aroma acompanhou as variações da frequência cardíaca, enquanto a sensação de ativação acompanhou o suor da pele[4]. O mesmo estudo mostrou que a intensidade e a ativação andam juntas: quanto mais forte a pessoa percebe o aroma, mais ele tende a ativar[4].
Ou seja: um óleo “calmante” de que a pessoa não gosta dificilmente vai acalmá-la. E um óleo calmante muito concentrado pode ativar em vez de relaxar. Isso vale também para a quantidade: no ambiente, poucas gotas no difusor costumam bastar, e encher o cômodo de aroma pode causar dor de cabeça e irritação. Veja como usar o difusor.
5. Os genes do seu nariz
Temos cerca de 400 tipos de receptores olfativos, e os genes desses receptores variam muito de uma pessoa para outra. Um estudo clássico mostrou que uma variação num único receptor muda a forma como as pessoas percebem certo aroma: para umas, ele é forte e desagradável; para outras, fraco e até agradável[7].
Um estudo maior sequenciou os receptores olfativos de 332 pessoas e testou 68 aromas. Variações num único receptor mudaram com frequência a intensidade e o prazer percebidos, e a genética, a ancestralidade, a idade e o sexo juntos explicaram parte dessas diferenças[8]. Em outras palavras: duas pessoas podem, literalmente, sentir o mesmo óleo de jeitos diferentes.
6. Cultura e experiência
O que a pessoa viveu também molda o olfato. Num estudo que comparou mulheres japonesas e alemãs, os mesmos aromas do dia a dia receberam notas diferentes de prazer e até de intensidade, conforme fossem familiares ou não em cada cultura[9]. Os aromas ligados a comidas conhecidas tendiam a ser mais agradáveis.
No Brasil, isso aparece em aromas como o da laranja, do capim-limão ou do cravo, que despertam lembranças de cozinha, de infância ou de chá caseiro em muita gente. Um aroma familiar e querido costuma ser um bom ponto de partida.
A idade também conta. O estudo com 332 pessoas mostrou que a idade e o sexo, junto com a genética, ajudam a explicar as diferenças na forma de perceber os aromas[8]. Com o passar dos anos, o olfato tende a perder sensibilidade, e muitas pessoas idosas precisam de aromas mais marcantes para perceber o mesmo efeito, sempre com cuidado para não exagerar na quantidade. Veja aromaterapia para idosos.
Acalmar e despertar não são opostos
Um estudo com eletroencefalograma comparou lavanda e alecrim em 40 adultos, por 3 minutos. A lavanda deixou as pessoas mais relaxadas e mais sonolentas, mas elas fizeram contas mais rápido e com mais acerto. O alecrim aumentou o alerta e, ao mesmo tempo, reduziu a ansiedade[10]. Ou seja, um aroma pode deixar a pessoa mais alerta e menos ansiosa ao mesmo tempo.
Outro estudo, com 144 voluntários, mostrou que a hortelã-pimenta aumentou o alerta e melhorou a memória, enquanto o ylang-ylang aumentou a calma e deixou as pessoas mais lentas[11]. Isso ajuda a explicar por que a hortelã é ótima para quem se sente “travada” ou sufocada na ansiedade, mas pode incomodar quem já está agitada. Veja hortelã na crise de ansiedade.
| Óleo | Fama | O que os estudos mostraram |
|---|---|---|
| Lavanda | Calmante | Relaxou e deu sono, mas melhorou o desempenho em contas[10] |
| Alecrim | Estimulante | Aumentou o alerta e reduziu a ansiedade[10] |
| Hortelã-pimenta | Estimulante | Aumentou o alerta e a memória[11] |
| Ylang-ylang | Calmante | Aumentou a calma e deixou as respostas mais lentas[11] |
| Rosa | Calmante | Reduziu a atividade do sistema de alerta[12] |
| Pimenta-preta e grapefruit | Estimulante | Aumentaram a atividade do sistema de alerta[12] |
Esses estudos foram feitos com grupos de pessoas e mostram a tendência média. Dentro de cada grupo, sempre há quem reaja de outro jeito, pelos motivos que vimos acima.
Como descobrir o aroma que funciona para você
Para uso pessoal e familiar, com adultos sem contraindicações, este roteiro ajuda:
- Teste num momento tranquilo, e não no meio de uma crise.
- Uma gota no algodão, a alguns centímetros do nariz. Nada de pingar direto no nariz ou na pele sem diluir.
- Dê uma nota de 0 a 10 para o quanto você gosta do aroma e outra para como se sente depois de alguns minutos.
- Repare na lembrança que o aroma traz. Se trouxer algo ruim, descarte, mesmo que seja um “óleo calmante”.
- Escolha um ou dois aromas e use sempre nos mesmos momentos de calma, para criar a âncora.
- Anote o efeito por uma ou duas semanas. Se der dor de cabeça, enjoo ou mais agitação, troque.

Crianças, gestantes, pessoas com asma, epilepsia ou em tratamento médico precisam de orientação antes de usar óleos essenciais. Veja quem não pode fazer aromaterapia.
Mitos e verdades
- “Lavanda acalma todo mundo.” Mito. O efeito depende da memória, da expectativa e do gosto de cada pessoa[1][6].
- “Se o efeito depende da expectativa, aromaterapia é só placebo.” Mito. As moléculas também mudam a atividade do sistema nervoso[12][13]; a expectativa se soma a isso[2][3].
- “Duas pessoas podem sentir o mesmo óleo de jeitos diferentes.” Verdade. Os genes dos receptores olfativos variam[7][8].
- “Quanto mais forte, melhor.” Mito. Intensidade maior tende a ativar[4], além de irritar.
- “Ansiedade muda a forma como sentimos os aromas.” Verdade. Aromas neutros ficam desagradáveis[5].
- “Um aroma pode acalmar e deixar alerta ao mesmo tempo.” Verdade, como mostrou o estudo com alecrim[10].
Na aromaterapia clínica
É por tudo isso que eu não escolho o óleo pela lista de “calmantes”. Na consulta, pergunto quais aromas a pessoa ama e quais detesta, que lembranças eles trazem, como a ansiedade aparece no corpo dela, em que momentos e com que intensidade. Muitas vezes, levamos alguns aromas para a pessoa testar com calma e dar notas, e a escolha final é feita junto com ela.
No retorno, avaliamos o que aconteceu: se o aroma acalmou, se ficou enjoativo, se trouxe sono ou alerta, se virou uma âncora. Ajustamos a quantidade, o horário e, se for preciso, o próprio óleo. O plano é individual porque o olfato é individual. Sempre como tratamento complementar: a aromaterapia não substitui o tratamento médico e não faz diagnóstico médico.
Se você quer um plano feito para você, o atendimento é online, com Camila Castellan e/ou aromaterapeutas da equipe.

- ✓Avaliação individual: sono, rotina, emoções, medicamentos e exames que você já tem
- ✓Plano por escrito: quais óleos, por qual via, em que diluição e em que horários
- ✓Acompanhamento em fases, com retornos para ajustar
- ✓Segurança para quem usa medicamentos, sempre junto com o seu médico
- Aromaterapia na saúde mental: guia completo
- Óleos essenciais e neurotransmissores: serotonina, dopamina, GABA e o que a ciência sabe
- Como a aromaterapia age no cérebro: olfato, emoção e memória
- Sensibilidade a cheiros: o que pode ser, autismo, TDAH e enxaqueca
- Hortelã na crise de ansiedade: funciona? O que a ciência diz e como usar
- Óleo essencial de lavanda: para que serve, o que diz a ciência e como usar
Perguntas frequentes
Por que um óleo essencial me acalma e outra pessoa fica agitada?
Porque o efeito depende da memória que o aroma desperta[6], da expectativa[2][3], do estado emocional[5], do quanto a pessoa gosta dele[4] e da genética do olfato[7][8].
Lavanda pode deixar a pessoa agitada?
Pode, em quem não gosta do aroma, tem uma lembrança ruim ligada a ele ou usa uma quantidade grande. A intensidade alta tende a ativar[4].
Óleo essencial calmante funciona para todo mundo?
Não. Os estudos mostram tendências médias[10][11], mas a resposta individual varia muito[1].
Aromaterapia é efeito placebo?
Em parte, a expectativa influencia o efeito[2][3], mas as moléculas aromáticas também mudam a atividade do sistema nervoso[12][13]. As duas coisas se somam.
Por que eu passei a não suportar alguns cheiros?
Ansiedade e humor negativo deixam aromas neutros mais desagradáveis[5]. Gestação, enxaqueca e outras condições também mudam o olfato. Se o incômodo for intenso, procure avaliação.
Como saber qual óleo essencial é melhor para mim?
Teste num momento tranquilo, com uma gota no algodão, dê notas para o quanto gosta e como se sente e observe por uma ou duas semanas.
Óleo essencial pode dar dor de cabeça?
Pode, principalmente em quantidade alta ou em pessoas sensíveis a aromas. Reduza a quantidade ou troque o óleo.
O que é aroma âncora?
É um aroma usado sempre num mesmo estado, como a calma, para que o cérebro aprenda a associar os dois[6].
Alecrim acalma ou agita?
Num estudo, o alecrim aumentou o alerta e reduziu a ansiedade ao mesmo tempo[10]. Para algumas pessoas, à noite, pode atrapalhar o sono.
A genética muda a forma como sentimos os aromas?
Sim. Variações nos genes dos receptores olfativos mudam a intensidade e o prazer percebidos[7][8].
Referências
- Herz RS. Aromatherapy facts and fictions: a scientific analysis of olfactory effects on mood, physiology and behavior. Int J Neurosci. 2009;119(2):263-90. doi:10.1080/00207450802333953
- Howard S, Hughes BM. Expectancies, not aroma, explain impact of lavender aromatherapy on psychophysiological indices of relaxation in young healthy women. Br J Health Psychol. 2008;13(Pt 4):603-17. doi:10.1348/135910707X238734
- Campenni CE, Crawley EJ, Meier ME. Role of suggestion in odor-induced mood change. Psychol Rep. 2004;94(3 Pt 2):1127-36. doi:10.2466/pr0.94.3c.1127-1136
- Bensafi M, Rouby C, Farget V, et al. Autonomic nervous system responses to odours: the role of pleasantness and arousal. Chem Senses. 2002;27(8):703-9. doi:10.1093/chemse/27.8.703
- Krusemark EA, Novak LR, Gitelman DR, Li W. When the sense of smell meets emotion: anxiety-state-dependent olfactory processing and neural circuitry adaptation. J Neurosci. 2013;33(39):15324-32. doi:10.1523/JNEUROSCI.1835-13.2013
- Herz RS. The Role of Odor-Evoked Memory in Psychological and Physiological Health. Brain Sci. 2016;6(3):22. doi:10.3390/brainsci6030022
- Keller A, Zhuang H, Chi Q, Vosshall LB, Matsunami H. Genetic variation in a human odorant receptor alters odour perception. Nature. 2007;449(7161):468-72. doi:10.1038/nature06162
- Trimmer C, Keller A, Murphy NR, et al. Genetic variation across the human olfactory receptor repertoire alters odor perception. Proc Natl Acad Sci U S A. 2019;116(19):9475-9480. doi:10.1073/pnas.1804106115
- Ayabe-Kanamura S, Schicker I, Laska M, et al. Differences in perception of everyday odors: a Japanese-German cross-cultural study. Chem Senses. 1998;23(1):31-8. doi:10.1093/chemse/23.1.31
- Diego MA, Jones NA, Field T, et al. Aromatherapy positively affects mood, EEG patterns of alertness and math computations. Int J Neurosci. 1998;96(3-4):217-24. doi:10.3109/00207459808986469
- Moss M, Hewitt S, Moss L, Wesnes K. Modulation of cognitive performance and mood by aromas of peppermint and ylang-ylang. Int J Neurosci. 2008;118(1):59-77. doi:10.1080/00207450601042094
- Haze S, Sakai K, Gozu Y. Effects of fragrance inhalation on sympathetic activity in normal adults. Jpn J Pharmacol. 2002;90(3):247-53. doi:10.1254/jjp.90.247
- Sowndhararajan K, Kim S. Influence of Fragrances on Human Psychophysiological Activity: With Special Reference to Human Electroencephalographic Response. Sci Pharm. 2016;84(4):724-751. doi:10.3390/scipharm84040724
