
Quem tem epilepsia pode usar aromaterapia, mas com escolha cuidadosa dos óleos. Alguns óleos essenciais têm substâncias que podem provocar convulsões, como a cânfora, a tujona e, em doses altas, o 1,8-cineol: é o caso da sálvia, do hissopo, da losna, do funcho, do alecrim e do eucalipto, principalmente quando ingeridos[1][2][3]. Do outro lado, estudos em animais sugerem efeito anticonvulsivante do linalol e da lavanda, e mais estudos são necessários em pessoas[9][10]. A aromaterapia não cura a epilepsia, não substitui o anticonvulsivante e nunca deve levar a mudar a dose sem o neurologista. E uma regra vale para todos: crise convulsiva que passa de 5 minutos é emergência[13].

Resumo rápido
Neste artigo você vai entender por que alguns óleos essenciais podem provocar convulsões, quais pedem mais cautela, o que dizem os relatos de caso, o que os estudos em animais sugerem sobre lavanda e linalol, o que foi a técnica de “aroma condicionado” e como usar a aromaterapia com segurança quando há epilepsia em casa.
Por que um óleo essencial pode provocar convulsão
Uma crise epiléptica acontece quando um grupo de neurônios dispara de forma excessiva e ao mesmo tempo. O cérebro tem um sistema de freio para evitar isso, e o principal neurotransmissor desse freio é o GABA. Muitos anticonvulsivantes funcionam justamente reforçando esse freio.
Algumas moléculas presentes em óleos essenciais fazem o contrário: atrapalham o freio. O exemplo mais estudado é a tujona, presente na losna e na sálvia comum. Um estudo de laboratório mostrou que a alfa-tujona bloqueia o receptor GABA-A, e que os sinais de intoxicação em camundongos melhoravam com diazepam, um remédio que reforça esse receptor[3]. Em outras palavras, a tujona solta o freio do cérebro.
Uma revisão sistemática sobre óleos essenciais e epilepsia reuniu relatos em humanos e estudos em animais e chegou a uma conclusão dupla: alguns óleos têm efeito convulsivante, e outros parecem ter efeito anticonvulsivante. Segundo os autores, os dois lados parecem depender da ação dos componentes sobre o sistema GABA e sobre os canais iônicos dos neurônios[2]. Para entender melhor essa conversa entre aromas e neurotransmissores, veja óleos essenciais e neurotransmissores.
Um ponto importante: o risco depende muito da dose e da via. A maioria dos casos graves descritos envolve ingestão, aplicação de grandes quantidades na pele ou crianças pequenas[1][4]. Inalar uma gota num lenço é muito diferente de engolir uma colher de óleo.
Os óleos que pedem cautela
Em 1999, neurologistas de Genebra descreveram três pessoas sem histórico de epilepsia, dois adultos e uma criança, que tiveram convulsões depois de usar óleos essenciais com fins terapêuticos. Ao revisar a literatura, eles listaram 11 plantas cujos óleos são convulsivantes potentes, entre elas eucalipto, funcho, hissopo, poejo, alecrim, sálvia, tuia e losna, por causa de cetonas como cânfora, tujona, pinocanfona, pulegona e fenchona, além do cineol[1]. A revisão de 2019 confirmou esse grupo e destacou que o risco aparece sobretudo no uso interno[2].
| Óleo | Componente de atenção | O que se sabe |
|---|---|---|
| Sálvia comum (Salvia officinalis) | Tujona e cânfora | Listada entre os óleos convulsivantes[1][2] |
| Losna e artemísias ricas em tujona | Tujona | A tujona bloqueia o receptor GABA-A em laboratório[3] |
| Hissopo | Pinocanfona | Listado entre os óleos convulsivantes[1][2] |
| Funcho (erva-doce amarga) | Fenchona e outros | Crise em mulher com epilepsia controlada após ingerir doces com o óleo[7] |
| Alecrim, sobretudo QT cânfora | Cânfora e 1,8-cineol | Listado entre os óleos convulsivantes no uso interno[1][2] |
| Eucalipto | 1,8-cineol em alta dose | Convulsões após ingestão, inclusive em crianças[4][8][15] |
| Cânfora (óleo canforado, pomadas) | Cânfora | Convulsões em crianças e adultos após ingestão[4][5][6] |
Repare que vários desses óleos são muito comuns no uso pessoal e familiar, como o alecrim e o eucalipto. Isso não quer dizer que sejam proibidos para todo mundo. Quer dizer que, quando há epilepsia, a escolha muda. O quimiotipo também importa: um alecrim rico em cânfora não é igual a um alecrim rico em cineol ou em verbenona. Veja o que é quimiotipo e as fichas do alecrim e do eucalipto.
O guia de segurança de Tisserand e Young, referência na área, recomenda que pessoas com epilepsia evitem os óleos ricos nessas cetonas e em 1,8-cineol em doses altas, por qualquer via, e reforça que a via oral é a de maior risco[14].

O que os relatos de caso mostram
A maior parte do que sabemos sobre óleos e convulsões vem de relatos de caso e séries de intoxicação. Eles não dizem com que frequência o problema acontece, mas mostram que ele é real e em que situações aparece.
| Estudo | Quem | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Burkhard, 1999[1] | 2 adultos e 1 criança, sem epilepsia | Convulsões após uso terapêutico de óleos; nenhuma outra causa encontrada |
| Skalli, 2011[7] | Mulher de 38 anos com epilepsia controlada | Crise tônico-clônica após comer doces com óleo de funcho, mesmo usando o remédio |
| Flaman, 2001[4] | 251 crianças atendidas por um centro de intoxicações | Duas tiveram convulsões após ingerir óleos de cânfora ou eucalipto e se recuperaram |
| Rahimi, 2017[5] | 30 pessoas que ingeriram cânfora | 12 tiveram crise tônico-clônica; todas sobreviveram com suporte |
| Salcedo, 2025[6] | Menino de 1 ano | Convulsões após engolir tabletes de cânfora; precisou de UTI |
| Sitaraman, 2019[8] | Bebê de 17 meses | Ingestão acidental de óleo de eucalipto, com atendimento de emergência |
| Suresh, 2025[15] | Homem adulto | Engoliu 15 mL de óleo de eucalipto guardado em frasco de xarope; convulsões e morte |
O padrão se repete: ingestão, dose alta, criança pequena ou frasco guardado no lugar errado. Na revisão do centro de intoxicações de Toronto, os autores encontraram na literatura 18 relatos de crianças que ingeriram esses óleos, com vômitos, sonolência, coma e convulsões, e uma morte[4]. Por isso, a regra é clara: criança nunca ingere óleo essencial, e os frascos ficam fora do alcance, com tampa conta-gotas. Veja óleo essencial para crianças.
O caso do funcho merece atenção especial, porque a paciente já tinha epilepsia e estava bem controlada com o remédio[7]. Ou seja, o anticonvulsivante não “protege” contra qualquer quantidade de um óleo convulsivante. E a cânfora não está só em óleos: aparece em pomadas, óleo canforado e tabletes vendidos em farmácia e em lojas de produtos religiosos[4][6].
O outro lado: óleos que parecem proteger
Se algumas moléculas soltam o freio do cérebro, outras parecem reforçá-lo. O linalol, componente principal da lavanda e de vários outros óleos, é o mais estudado. Pesquisadores brasileiros mostraram, em ratos e camundongos, que o linalol atrasou convulsões provocadas por substâncias que hiperestimulam os neurônios e reduziu a ligação do glutamato, o principal neurotransmissor excitatório[10]. Em outro estudo, camundongos que apenas inalaram linalol ficaram mais sedados, sem perder a coordenação motora[11].
Com a lavanda, um estudo japonês dos anos 1990 mostrou que camundongos que inalaram o vapor do óleo ficaram mais protegidos contra convulsões induzidas quimicamente[9]. A revisão de 2019 cita a lavanda, o capim-limão, o cravo e o endro como candidatos a estudos futuros, por causa de componentes como linalol, citral, eugenol e carvona[2].
Esses resultados sugerem um efeito protetor e precisam ser aprofundados. Mais estudos são necessários em pessoas: não encontramos ensaios clínicos que testaram lavanda ou linalol como tratamento da epilepsia. Na prática, isso significa que a lavanda costuma ser uma escolha mais segura para quem tem epilepsia e quer usar aromaterapia para sono, estresse ou ansiedade, e não que ela substitua o remédio. Veja a ficha da lavanda.
Betts e a técnica do aroma condicionado
O trabalho mais conhecido sobre aromaterapia em pessoas com epilepsia é do psiquiatra britânico Tim Betts, numa clínica de epilepsia em Birmingham. A ideia era usar o poder do aroma de evocar estados emocionais: a pessoa escolhia um aroma, aprendia a associá-lo a um estado de relaxamento profundo, em alguns casos com hipnose, e depois usava esse aroma quando percebia os sinais de que uma crise poderia vir.
Em 2003, ele publicou o acompanhamento de dois anos das primeiras 100 pessoas com epilepsia de difícil controle que pediram esse tratamento. Mais de um terço ficou pelo menos um ano sem crises, e a combinação de aromaterapia com hipnose teve o efeito mais duradouro[12].
O próprio autor pede cautela: não foi um ensaio controlado, os pacientes procuraram o tratamento por vontade própria, a técnica foi sendo ajustada ao longo do tempo, e ele escreve que o resultado real provavelmente seria menor num estudo controlado[12]. É um trabalho interessante, que mostra o potencial do aroma como âncora emocional, mas não permite dizer que a aromaterapia controla crises. Ele também deixa uma lição: em muitas pessoas, estresse e ansiedade fazem parte do que desencadeia as crises, e cuidar disso pode ajudar. Veja como a aromaterapia age no cérebro e memória olfativa.
Como usar a aromaterapia com segurança quando há epilepsia
Para adultos com epilepsia, em acompanhamento com o neurologista, estes cuidados ajudam a reduzir o risco:
- Converse com o neurologista antes de começar e conte quais óleos pretende usar.
- Evite os óleos da tabela de cautela, por qualquer via, a menos que uma aromaterapeuta com formação clínica avalie o caso[1][2][14].
- Prefira óleos ricos em linalol ou ésteres, como lavanda verdadeira e laranja-doce, em pouca quantidade.
- Prefira a inalação leve: uma gota no lenço ou no inalador pessoal, ou difusor por pouco tempo, com o ambiente ventilado.
- Na pele, sempre diluído e em áreas pequenas. Veja como diluir óleo essencial.
- Não ingira. A via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria. Para quem tem epilepsia, o cuidado é ainda maior.
- Anote: se as crises mudarem de frequência depois de começar um óleo, pare e avise o neurologista.

Aromas muito intensos também podem incomodar algumas pessoas, e há quem relate que certos odores fortes do dia a dia funcionam como gatilho. Por isso, menos é mais: um aroma suave, escolhido pela própria pessoa. Nas crianças com epilepsia, todo uso deve ser combinado com o neurologista e orientado por uma aromaterapeuta com formação clínica; recém-nascido não usa óleo essencial. Veja quem não pode fazer aromaterapia.
Remédio, emergência e quando procurar ajuda
A aromaterapia é tratamento complementar, não substitui o tratamento médico e não faz diagnóstico médico. O anticonvulsivante só se reduz ou se suspende junto com o médico. Suspender o remédio por conta própria pode trazer as crises de volta, e de forma mais forte. Também vale contar ao neurologista e ao farmacêutico sobre qualquer produto natural em uso. Veja óleos essenciais e medicamentos: interações.
Durante uma crise convulsiva:
- mantenha a calma e marque o tempo no relógio;
- afaste objetos que possam machucar e proteja a cabeça;
- vire a pessoa de lado quando os movimentos diminuírem;
- não coloque nada na boca e não segure os movimentos;
- não ofereça óleo, água ou remédio pela boca durante a crise.
Ligue para o SAMU (192) se a crise durar mais de 5 minutos, se uma crise emendar na outra sem a pessoa acordar, se for a primeira crise da vida, se houver dificuldade para respirar, ferimento, gestação ou se a crise acontecer na água. A Liga Internacional contra a Epilepsia considera que uma crise convulsiva que passa de 5 minutos já deve ser tratada como estado de mal epiléptico, porque a partir daí tende a não parar sozinha[13].
E se alguém, adulto ou criança, ingerir óleo essencial, procure atendimento na hora, mesmo sem sintomas, levando o frasco. Nas intoxicações por cânfora, as crises podem surgir horas depois[5].
Mitos e verdades
- “Óleo essencial é natural, então não provoca convulsão.” Mito. Cânfora, tujona e outros componentes podem provocar crises[1][3].
- “O risco maior está na ingestão.” Verdade. A maioria dos casos graves envolve engolir o óleo[2][4][5].
- “Quem toma anticonvulsivante está protegido.” Mito. Houve crise com óleo de funcho em paciente controlada com remédio[7].
- “Lavanda ajuda na epilepsia.” Em parte. Estudos em animais sugerem efeito anticonvulsivante[9][10], mas mais estudos são necessários em pessoas.
- “A aromaterapia acaba com as crises.” Mito. Os resultados de Betts são de um estudo sem grupo controle[12].
- “Crise longa é emergência.” Verdade. Passou de 5 minutos, chame o socorro[13].
Na aromaterapia clínica
Quando atendo alguém com epilepsia, a primeira coisa que faço é entender o quadro: que tipo de crise a pessoa tem, com que frequência, quais remédios usa, se as crises estão controladas e o que costuma desencadear uma crise, como privação de sono, estresse ou febre. Também pergunto quais óleos e produtos ela já usa em casa, porque muitas vezes há cânfora ou eucalipto em pomadas e inalantes que ninguém lembrou de mencionar.
A partir daí, a escolha dos óleos é mais restrita. Deixo de fora os óleos ricos em cetonas e 1,8-cineol e trabalho com aromas mais suaves, em pouca quantidade e por inalação ou na pele bem diluídos. O foco costuma estar no que está ao redor das crises: o sono, a ansiedade, o estresse. No retorno, olho junto com a pessoa o diário de crises e o diário de uso dos óleos. Se algo mudar para pior, paramos e conversamos com o neurologista.
Em mais de 10 anos de atendimento clínico, aprendi que segurança, aqui, é parte do tratamento: a aromaterapia entra como tratamento complementar, junto com o neurologista, nunca no lugar dele.
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- O que é aromaterapia: como funciona, para que serve e o que diz a ciência
- Quem não pode fazer aromaterapia? Contraindicações, uso diário e frequência
- Óleo essencial pode ser ingerido? O que dizem os estudos, riscos e cuidados
- Óleo essencial de lavanda: para que serve, o que diz a ciência e como usar
- Óleos essenciais e medicamentos: interações, riscos e como usar com segurança
Perguntas frequentes
Quem tem epilepsia pode usar óleo essencial?
Pode, com cuidado: evitando os óleos ricos em cânfora, tujona e 1,8-cineol em doses altas, preferindo a inalação leve e sem ingerir[2][14]. Sempre com o conhecimento do neurologista.
Quais óleos essenciais podem provocar convulsão?
Os mais citados são sálvia, hissopo, losna, tuia, poejo, funcho, alecrim, eucalipto e cânfora, principalmente no uso interno[1][2].
Lavanda é segura para quem tem epilepsia?
A lavanda verdadeira, rica em linalol, costuma ser uma escolha mais segura. Estudos em animais sugerem efeito anticonvulsivante[9][10], e mais estudos são necessários em pessoas.
Eucalipto pode dar convulsão?
Em dose alta, principalmente ingerido, sim. Há relatos de convulsão após ingestão, inclusive em crianças[4][8][15].
Alecrim é proibido para quem tem epilepsia?
O alecrim, sobretudo o rico em cânfora, está na lista de óleos que pedem cautela[1][2]. Quem tem epilepsia deve evitá-lo sem orientação profissional.
Pomada de cânfora é perigosa para criança?
Sim, se ingerida. A cânfora já causou convulsões em crianças pequenas[4][6]. Guarde fora do alcance.
Aromaterapia pode substituir o anticonvulsivante?
Não. A aromaterapia não cura a epilepsia e é tratamento complementar. O remédio só se reduz ou se suspende junto com o neurologista.
O que foi o estudo de Betts com aromaterapia?
Um acompanhamento de 100 pessoas com epilepsia de difícil controle que usaram um aroma associado ao relaxamento, com ou sem hipnose. Os resultados foram animadores, mas sem grupo controle[12].
Quando uma crise convulsiva é emergência?
Quando passa de 5 minutos, quando uma crise emenda na outra, na primeira crise da vida ou com dificuldade para respirar[13]. Ligue 192.
Óleo essencial no difusor pode desencadear crise?
Com os óleos convulsivantes, em quantidade alta e por muito tempo, é um risco a evitar[14]. Prefira óleos suaves, pouco tempo e ambiente ventilado.
Referências
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- Salcedo YE, Soriano-López AE, Almonte A, et al. From cultural remedy to medical emergency: a case report of camphor toxicity in a one-year-old male patient. BMC Pediatr. 2025;25(1):121. doi:10.1186/s12887-025-05488-w
- Skalli S, Soulaymani Bencheikh R. Epileptic seizure induced by fennel essential oil. Epileptic Disord. 2011;13(3):345-7. doi:10.1684/epd.2011.0451
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