
Sim, estudos com milhares de idosos mostram que quem tem o olfato muito reduzido morre mais cedo, em média, do que quem sente bem os odores. No estudo de Pinto e colegas, de 2014, com 3.005 idosos dos Estados Unidos, 39% das pessoas com anosmia (perda total do olfato) tinham morrido em cinco anos, contra 10% das que tinham olfato normal[1]. Outro estudo acompanhou 2.289 idosos por 13 anos e encontrou risco 46% maior em dez anos[2], e meta-análises confirmam a associação, mais modesta do que nos primeiros estudos[3][4]. Isso não quer dizer que perder o olfato cause a morte: o olfato funciona como um termômetro do envelhecimento, ligado a doenças neurodegenerativas, à nutrição e à segurança em casa[1][2]. O caminho é avaliar com o médico ou o otorrino, cuidar da segurança e, quando indicado, fazer treino olfativo.

Resumo rápido
Este é um artigo da série Por dentro do estudo. Você vai ver como os cientistas descobriram que o olfato ajuda a prever a longevidade de idosos, o gráfico original do estudo, o que as meta-análises mais recentes acrescentaram e, principalmente, o que isso significa, e não significa, para a sua vida.
A pergunta dos cientistas
Você provavelmente aprendeu que a saúde de um idoso se avalia pela pressão, pelo coração e pelos exames. Na ciência, um sentido que quase ninguém testa entrou nessa lista: o olfato.
A ideia partiu de uma observação simples. O olfato está ligado a muitas funções do corpo ao mesmo tempo: ele guia o apetite e as escolhas alimentares, avisa sobre perigos como fumaça e comida estragada e tem ligação direta com regiões do cérebro que cuidam da memória e das emoções[1]. Além disso, ele depende de renovação constante: os neurônios do nariz que captam os odores são substituídos ao longo da vida[1].
Pesquisadores da Universidade de Chicago, liderados pelo otorrino Jayant Pinto, perguntaram: será que o olfato é um sinal precoce de que o corpo está envelhecendo mais depressa? E será que um teste rápido de olfato prevê quem tem mais risco de morrer nos próximos anos[1]?
A pergunta faz ainda mais sentido porque a perda de olfato é comum e silenciosa. Num estudo com 2.491 moradores de uma cidade americana, de 53 a 97 anos, 24,5% tinham o olfato prejudicado no teste, e entre os de 80 a 97 anos eram 62,5%. Mas só 9,5% diziam perceber o problema[5]. Ou seja, muita gente perde o olfato sem notar.
Como o estudo foi feito
O estudo de 2014 usou os dados de um grande levantamento nacional sobre saúde e envelhecimento nos Estados Unidos, o NSHAP. Entre 2005 e 2006, entrevistadores visitaram 3.005 adultos de 57 a 85 anos, 1.454 homens e 1.551 mulheres, que moravam em suas próprias casas, ou seja, não eram pacientes de hospital nem de casas de repouso[1].
O teste de olfato. Cada pessoa recebeu cinco canetas com odores, uma de cada vez: rosa, couro, laranja, peixe e hortelã-pimenta. Para cada uma, escolhia o nome certo entre quatro opções com figuras. O teste levava cerca de três minutos[1]. Pelo número de erros, os participantes foram divididos em três grupos:
- olfato normal (normosmia): 0 ou 1 erro;
- olfato reduzido (hiposmia): 2 ou 3 erros;
- perda grave ou total (anosmia): 4 ou 5 erros[1].
O acompanhamento. Cinco anos depois, a equipe voltou a procurar todos os participantes. Foram 430 mortes, e a análise final incluiu 2.918 pessoas[1].
Os cuidados estatísticos. Os autores ajustaram os resultados para idade, sexo, escolaridade, raça e doenças que mais matam idosos, como problemas cardíacos, câncer, AVC e diabetes. Também testaram se nutrição, memória, saúde mental, tabagismo, álcool ou fragilidade explicavam o resultado[1].
O que os pesquisadores encontraram
O resultado chamou atenção pela força. Em cinco anos, morreram 39% das pessoas com anosmia, 19% das que tinham olfato reduzido e 10% das que tinham olfato normal[1]. O padrão apareceu nas três faixas de idade e seguiu uma escada: quanto mais erros no teste, maior a mortalidade, mesmo entre as pessoas que erraram só um ou dois odores[1].
No gráfico abaixo, à esquerda, cada grupo de barras é uma faixa de idade: a barra escura é a anosmia, a do meio é o olfato reduzido e a clara é o olfato normal. À direita, a probabilidade de morte em cinco anos sobe a cada odor errado no teste.

Depois de todos os ajustes, as pessoas com anosmia ainda tinham mais de três vezes a chance de morrer em cinco anos em comparação com quem tinha olfato normal. A nutrição, a saúde mental, o tabagismo, o álcool e a fragilidade não explicaram o achado, e a memória explicou só uma pequena parte[1]. Na comparação dos autores, a anosmia foi um sinal de risco mais forte do que insuficiência cardíaca, câncer e doença pulmonar, e só a lesão grave no fígado pesou mais[1].
E os estudos seguintes? Outros grupos repetiram a pergunta, em outros países e por mais tempo:
| Estudo | Quem participou | O que encontrou |
|---|---|---|
| Pinto e colegas, EUA, 2014[1] | 2.918 adultos de 57 a 85 anos, por 5 anos | Mortalidade de 39% na anosmia, contra 10% no olfato normal |
| Liu e colegas, EUA, 2019[2] | 2.289 idosos de 71 a 82 anos, por até 13 anos | Risco de morte 46% maior em 10 anos e 30% maior em 13 anos |
| Devanand e colegas, EUA, 2015[6] | 1.169 idosos, por cerca de 4 anos | Mortalidade de 45% no pior grupo do teste, contra 18% no melhor |
| Ekström e colegas, Suécia, 2017[7] | 1.774 adultos de 40 a 90 anos, por 10 anos | Associação mantida mesmo considerando quem desenvolveu demência |
| Ruane e colegas, Suécia, 2025[9] | 2.524 adultos de 60 a 99 anos, por 12 anos | Cada odor errado a mais: risco 6% maior em 6 anos |
| Meta-análise de 2026[4] | 14 estudos de coorte com idosos | Risco 20% maior, que cai para 9% após correção estatística |
O estudo de dez anos. Em 2019, uma equipe que incluía o próprio Pinto acompanhou 2.289 idosos de duas cidades americanas. Comparados a quem tinha bom olfato, os que tinham olfato ruim tiveram risco de morte 46% maior em dez anos e 30% maior em treze anos[2]. Um detalhe surpreendente: a associação apareceu entre quem se dizia com saúde boa ou excelente, mas não entre quem já se sentia com saúde ruim[2].
O que as meta-análises dizem. Uma meta-análise de 2022 revisou 11 estudos, com 21.601 pessoas, e encontrou risco 52% maior de morte em quem tinha perda de olfato, com uma ressalva importante: quanto mais longo o acompanhamento, mais fraca a associação[3]. A meta-análise mais recente, de 2026, com 14 estudos de coorte, encontrou risco 20% maior. Ao corrigir um possível excesso de estudos positivos publicados, o número caiu para 9%, mas continuou significativo. Os autores destacam que o resultado muda bastante conforme o jeito de medir o olfato[4].
Em resumo: a associação se repete em vários países, mas é menor do que o primeiro estudo sugeria[3][4].
O que isso muda no corpo e no cérebro
Os autores de 2014 veem o olfato como o “canário na mina” da saúde humana, e não como a causa direta da morte[1]. As explicações discutidas provavelmente agem juntas.
Renovação celular. O olfato é o único sentido que depende de troca constante de neurônios a partir de células-tronco. Se essa renovação fica lenta, isso pode refletir uma perda mais geral da capacidade de reparo do corpo com a idade[1].
Cérebro e doenças neurodegenerativas. A perda de olfato costuma aparecer antes do diagnóstico de doenças como Alzheimer e Parkinson[1]. No estudo de 2019, as doenças neurodegenerativas explicaram 22% do risco extra em dez anos, e as mortes por doenças neurodegenerativas e cardiovasculares foram as que mais se ligaram ao olfato ruim[2]. No estudo sueco de 2025, a demência explicou 23% da associação em seis anos[9]. Num estudo australiano, a associação deixou de ser significativa quando os autores consideraram o declínio cognitivo[8]. Já no estudo sueco de 2017, ela se manteve mesmo considerando quem desenvolveu demência[7]. A relação com a memória está detalhada em olfato e Alzheimer.
Nutrição e peso. Boa parte do sabor dos alimentos vem do olfato. No estudo de 2019, a perda de peso explicou 6% do risco extra[2], e no estudo sueco a desnutrição explicou 5% e a fragilidade, 11%[9].
Segurança. Num estudo com 445 pacientes, 37% de quem tinha olfato prejudicado já tinha passado por algum acidente ligado a ele, contra 19% de quem tinha olfato normal, como queimar panelas, comer alimento estragado e não perceber vazamento de gás[10].
Ambiente e humor. O nervo olfatório é exposto direto ao ar, e os autores levantam a hipótese de que poluição e toxinas afetem o olfato e outros órgãos, algo que precisa ser aprofundado[1]. E a perda de olfato se associa a mais depressão em idosos[11].

O que isso significa na prática, e o que não significa
Lido com calma, esse é um resultado que ajuda a cuidar melhor.
O que significa:
- o olfato merece ser avaliado em idosos, como a visão e a audição. Os autores de 2014 sugerem que um teste curto pode ajudar a identificar quem precisa de mais atenção e acompanhamento[1];
- muita gente perde o olfato sem perceber, por isso vale observar sinais como comida sem graça, perfume colocado em excesso ou dificuldade de notar a comida queimando[5];
- a perda de olfato pede cuidados práticos com segurança, alimentação e humor[10][11].
O que não significa:
- Perder o olfato não causa a morte. Os estudos são observacionais: mostram que as duas coisas andam juntas, não que uma provoca a outra. O olfato é um marcador, um sinal de alerta[1][4].
- Não é uma sentença individual. Os números são médias de grupos. A maioria das pessoas com olfato reduzido estava viva ao fim do acompanhamento: no estudo de 2014, 81% de quem tinha hiposmia e 61% de quem tinha anosmia[1].
- Não vale para qualquer perda de olfato. Os estudos avaliaram idosos e, na maioria, perdas medidas em teste. Perder o olfato numa gripe, numa crise de rinite ou após uma infecção viral, em adultos jovens, é outra situação, e muitas vezes ele melhora.
- Não sabemos se recuperar o olfato aumenta a longevidade. Não encontramos estudos que testem se o treino olfativo ou outro tratamento muda a mortalidade. O estudo de 2019 também não mediu mudanças do olfato ao longo do tempo[2].
Cuidados: o que fazer se o olfato diminuiu
1. Converse com o médico ou o otorrino. A perda de olfato tem causas tratáveis, como sinusite, rinite, pólipos e efeitos de remédios, e o otorrino pode indicar testes de olfato. Procure avaliação mais rápida se a perda foi súbita, se aconteceu de um lado só, se veio depois de uma pancada na cabeça ou junto com tremores, alteração de memória ou outros sintomas neurológicos. As causas e o caminho de investigação estão em perda de olfato e saúde mental.
2. Cuide da segurança em casa. Os acidentes mais comuns de quem tem olfato reduzido envolvem a cozinha, alimentos estragados e gás[10]. Algumas medidas simples:
- instale detector de fumaça e, se usa gás de cozinha, detector de gás;
- use timer ao cozinhar e não saia de perto do fogão;
- anote a data de abertura dos alimentos e confira a validade, sem confiar só no nariz;
- peça a alguém da família para conferir a casa de tempos em tempos.
3. Cuide da alimentação. Como o sabor depende muito do olfato, a comida pode perder a graça e o peso pode cair[2][9]. Texturas, cores e temperos ajudam, assim como um nutricionista.
4. Fique atento ao humor. A perda de olfato se associa a mais depressão[11]. Se surgirem tristeza persistente, falta de prazer ou pensamentos de morte, procure ajuda. Em caso de ideia de morte, ligue para o CVV, no 188, ligação gratuita, 24 horas, ou procure um pronto-socorro.
5. Pergunte sobre o treino olfativo. No estudo pioneiro de 2009, na Alemanha, 40 pacientes inalaram quatro odores intensos, rosa, eucalipto, limão e cravo, duas vezes por dia por 12 semanas, e tiveram melhora no teste de olfato, enquanto o grupo sem treino não mudou[12]. Uma revisão com 10 estudos e 639 pacientes confirmou benefício em diferentes causas de perda de olfato[13], e uma meta-análise em perda após infecção viral mostrou chance 2,77 vezes maior de melhora relevante com o treino[14]. O treino não cura todas as causas e não foi testado para aumentar a longevidade, mas é seguro quando bem orientado.
Sobre os óleos essenciais: no treino e no uso pessoal e familiar, a via é a inalação, de um frasco ou de um inalador pessoal, sem aplicar óleo puro na pele nem dentro do nariz. A via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria. Medicação só se reduz ou se suspende junto com o médico. Veja os cuidados específicos em aromaterapia para idosos e inalador pessoal de aromaterapia.
Mitos e verdades
- “Quem perde o olfato vai morrer logo.” Mito. O risco médio é maior, mas a maioria das pessoas com olfato reduzido estava viva ao fim dos estudos[1][2].
- “O olfato é um sinal de como o corpo está envelhecendo.” Verdade. Estudos em vários países mostram associação com a mortalidade em idosos[1][2][7][9].
- “A associação é tão forte quanto o primeiro estudo mostrou.” Em parte. As meta-análises confirmam, com um efeito mais modesto[3][4].
- “É tudo por causa da demência.” Mito. Ela explica cerca de um quinto da associação em dois estudos[2][9].
- “Se eu tivesse perdido o olfato, eu saberia.” Mito. Muitos idosos com olfato prejudicado no teste não percebem a perda[5].
- “Treino olfativo aumenta a longevidade.” Mito, por enquanto. O treino pode melhorar o olfato[12][13], mas não encontramos estudos sobre longevidade.
Na aromaterapia clínica
Na minha experiência de mais de 10 anos de atendimento clínico, o olfato é uma das primeiras coisas que observo, principalmente em idosos. Pergunto se a comida continua com sabor, se a pessoa percebe quando algo queima na cozinha, se o perfume de sempre ficou fraco.
Quando percebo uma perda, a prioridade é o encaminhamento ao médico ou ao otorrino, porque a aromaterapia não faz diagnóstico médico. Junto com isso, conversamos sobre segurança em casa e alimentação. Se o médico liberar, o treino olfativo entra como parte do cuidado, com aromas escolhidos junto com a pessoa, inalados de forma segura, e com retornos para acompanhar a evolução.
O recado desses estudos não é de medo, é de atenção. Para entender como o nariz conversa com o cérebro, veja memória olfativa e como a aromaterapia age no cérebro. A aromaterapia é tratamento complementar e não substitui o tratamento médico.
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- O que é aromaterapia: como funciona, para que serve e o que diz a ciência
- Perda de olfato e saúde mental: depressão, treino olfativo e quando procurar ajuda
- Olfato e Alzheimer: perda de olfato pode ser sinal precoce?
- Aromaterapia para idosos: benefícios, óleos e cuidados
- Memória olfativa: por que um aroma traz lembranças tão fortes
Perguntas frequentes
Perder o olfato pode indicar risco de morte?
Em idosos, sim, como sinal de alerta. No estudo de 2014, 39% das pessoas com anosmia morreram em cinco anos, contra 10% das que tinham olfato normal[1]. É uma média de grupos, não uma previsão individual.
Qual foi o estudo de Pinto e colegas?
Um estudo publicado na PLoS One em 2014, com 3.005 adultos de 57 a 85 anos dos Estados Unidos, que fizeram um teste de cinco odores e foram acompanhados por cinco anos[1].
E o estudo de dez anos?
É o de Liu e colegas, de 2019, com 2.289 idosos: quem tinha olfato ruim teve risco de morte 46% maior em dez anos[2].
Perder o olfato causa a morte?
Não. Os estudos mostram associação, não causa. O olfato funciona como um marcador do envelhecimento, ligado a doenças neurodegenerativas, nutrição e segurança[1][2].
O que as meta-análises mostram?
Elas confirmam a associação, com efeito mais modesto: risco 52% maior numa meta-análise de 2022 e 20% maior numa de 2026[3][4].
Por que o olfato tem ligação com a demência?
A perda de olfato costuma aparecer antes de doenças como Alzheimer e Parkinson[1]. A demência explicou cerca de um quinto da associação com a mortalidade em dois estudos[2][9].
Como saber se meu olfato diminuiu?
Muitas vezes a pessoa não percebe[5]. Comida sem graça ou não notar algo queimando merecem avaliação com o médico ou o otorrino.
Quais os riscos de perder o olfato em casa?
Os acidentes mais comuns são queimar panelas, comer alimento estragado e não perceber vazamento de gás[10]. Detectores de fumaça e de gás ajudam.
O treino olfativo funciona?
Ele pode melhorar o olfato em várias causas de perda, segundo revisões e meta-análises[12][13][14]. Não encontramos estudos que testem se ele aumenta a longevidade.
Aromaterapia ajuda quem perdeu o olfato?
Pode ajudar como tratamento complementar, com treino olfativo seguro, depois da avaliação médica. Ela não substitui o tratamento médico.
Referências
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