
Sim. Logo depois do parto, o recém-nascido já usa o olfato para se orientar. Num estudo publicado na revista The Lancet em 1994, uma das mamas de cada mãe foi lavada logo após o parto, e 22 de 30 bebês, colocados entre as duas mamas, escolheram sozinhos a mama não lavada[1]. Esse odor natural vem da pele, do leite e das pequenas glândulas da aréola, e parte dele lembra o líquido amniótico que o bebê conheceu na barriga[3][7][9]. O bebê também aprende, ainda no útero, aromas da comida da mãe, como o anis e a cenoura[10][11]. Em procedimentos que doem, como o furo no calcanhar, o odor do leite materno reduziu sinais de dor em estudos com recém-nascidos[12][14][15]. Tudo isso é sobre o olfato natural do bebê: recém-nascido não usa óleo essencial, nem perto do rosto, nem nos seios da mãe.

Resumo rápido
Neste artigo, da série Por dentro do estudo, você vai entender como esses estudos foram feitos, o que encontraram e por que nada disso é um convite para usar óleo essencial no bebê.
A pergunta dos cientistas
Você aprendeu que o recém-nascido só reconhece a mãe pela voz. Na ciência, o olfato é um dos sentidos mais prontos no nascimento, e o bebê já sabe procurar a mãe pelo nariz.
A primeira pista veio em 1975. O pesquisador britânico Aidan Macfarlane colocou dois paninhos que as mães usavam dentro do sutiã, um de cada lado da cabeça do bebê, e observou para que lado ele virava. Com cinco dias, mais bebês passavam mais tempo virados para o paninho da própria mãe do que para um paninho limpo. Com seis dias, já diferenciavam o paninho da própria mãe do paninho de outra mãe. Com dois dias, essa diferença ainda não aparecia[2].
Duas décadas depois, um grupo da Universidade de Tartu, na Estônia, liderado pela pediatra Heili Varendi, fez uma pergunta mais ousada: logo depois do parto, antes da primeira mamada, o bebê usa o olfato para achar o mamilo? Ou encontra a mama por acaso, pelo calor e pelo toque?
Em muitos mamíferos, os filhotes acham as tetas guiados por sinais químicos da mãe. Se o bebê humano faz algo parecido, lavar a mama com sabonete ou passar cremes perfumados pode atrapalhar sem ninguém perceber[3][7].
Como o estudo foi feito
O estudo principal foi publicado em 1994 na revista The Lancet[1]. O desenho foi simples e elegante:
- Quem participou: 30 mães e seus bebês, nascidos a termo e saudáveis.
- O que fizeram: logo após o parto, uma das mamas de cada mãe foi lavada, para tirar o odor natural da pele. A outra ficou como estava.
- Como testaram: o bebê era colocado de bruços, no peito da mãe, bem no meio das duas mamas. Ninguém ajudava. A equipe só observava qual mama o bebê alcançava e começava a sugar.
- O controle da temperatura: os pesquisadores mediram a temperatura das duas mamas. Lavar não mudou o calor da pele, então a escolha não podia ser explicada pela temperatura[1].
O mesmo grupo repetiu a ideia de vários jeitos: molhando uma aréola com líquido amniótico[3], testando bebês de 3 a 4 dias[4], gravando o choro de bebês separados da mãe[5] e colocando um paninho com o odor da mama a 17 centímetros do nariz do bebê[6].
Um ponto importante: em nenhum desses estudos os bebês receberam óleo essencial ou perfume. Tudo o que inalaram foi o odor natural da mãe ou do líquido amniótico.
O que encontraram
O resultado de 1994 foi claro: 22 de 30 bebês escolheram a mama que não foi lavada[1]. Os autores concluíram que os recém-nascidos responderam à diferença de odor entre as duas mamas.
Os estudos seguintes completaram o quadro:
- Quando uma aréola foi molhada com líquido amniótico, 23 de 30 bebês escolheram essa mama. Os autores sugeriram que a atração vem da exposição ao líquido amniótico na barriga, e recomendaram evitar produtos que eliminam ou mascaram esses sinais naturais logo após o parto[3].
- Com 3 a 4 dias de vida, mais bebês ainda escolhiam a mama não lavada da mãe (21 contra 8). E, com o passar dos dias e das mamadas, o odor natural da mama foi ganhando espaço sobre o do líquido amniótico[4].
- Bebês separados da mãe que ficaram perto do odor do líquido amniótico choraram bem menos (mediana de 29 segundos) do que os bebês com o odor da mama (301 segundos) ou sem nada (135 segundos)[5].
- Mesmo sem ver, ouvir ou tocar a mãe, mais bebês se moveram e chegaram até o paninho com o odor da mama do que até um paninho limpo[6].
Mas de onde vem esse odor tão atraente? Um estudo francês de 2009 olhou para uma estrutura pouco lembrada: as glândulas de Montgomery, aquelas bolinhas na aréola que crescem na gestação. A figura abaixo é desse estudo:

Bebês de 3 dias inalaram a secreção dessas glândulas, doada por mães que não eram as deles, e mais sete odores de comparação, como água, leite de vaca, fórmula e baunilha. A secreção da aréola foi a que mais aumentou a respiração de “farejar” e os movimentos de boca, como projetar a língua e fazer biquinho, mesmo em bebês que ainda não tinham mamado no peito[9].
Outro estudo mostrou que bebês de 3 a 4 dias preferem o odor de leite humano ao de fórmula, mesmo os alimentados com mamadeira[8]. Veja o resumo:
| Estudo | Quem participou | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Paninhos da mãe[2] | Bebês de 2 a 6 dias | Com 6 dias, diferenciaram o paninho da própria mãe do de outra mãe |
| Mama lavada ou não[1] | 30 recém-nascidos | 22 escolheram a mama não lavada |
| Aréola com líquido amniótico[3] | 30 recém-nascidos | 23 escolheram a mama com líquido amniótico |
| Choro longe da mãe[5] | 47 recém-nascidos | Com o odor do líquido amniótico, choraram bem menos |
| Glândulas da aréola[9] | Bebês de 3 dias | Mais “farejar” e movimentos de boca do que com outros sete odores |
| Leite humano ou fórmula[8] | Bebês de 3 a 4 dias | Preferiram o leite humano, mesmo os de mamadeira |
O que o bebê aprende ainda na barriga
Se o odor da mama lembra o líquido amniótico, uma pergunta aparece: o bebê aprende odores antes de nascer? Os estudos dizem que sim.
Em 2000, o pesquisador Benoist Schaal acompanhou 24 recém-nascidos. Parte das mães tinha consumido alimentos com anis no fim da gestação, e parte não. Logo após o nascimento e no 4º dia, os bebês das mães que comeram anis mostraram atração pelo aroma de anis. Os outros bebês reagiram ao anis com expressões de rejeição ou com indiferença[10]. Ou seja, a dieta da mãe mudou o “gosto olfativo” do bebê antes mesmo da primeira mamada.
Em 2001, um grupo dos Estados Unidos sorteou gestantes para beber suco de cenoura ou água no fim da gestação ou no começo da amamentação. Na fase da papinha, os bebês expostos à cenoura, pelo líquido amniótico ou pelo leite, fizeram menos caretas com o cereal sabor cenoura[11].
Ou seja, o leite materno não tem um aroma fixo: muda com o que a mãe come. Para entender como os aromas viram lembrança, leia memória olfativa: por que um aroma traz lembranças.
O que isso muda no corpo e no cérebro
O nariz do bebê já funciona antes do nascimento: o líquido amniótico, com os aromas da dieta da mãe, passa pelo nariz do feto[7][11]. Ao nascer, o odor da pele e do leite da mãe tem uma parte em comum com esse líquido, e por isso é tão familiar[7].
Em 2000, pesquisadores italianos e suecos usaram uma técnica com luz infravermelha, que não dói e não usa radiação, para ver o cérebro de 23 recém-nascidos. Quando os bebês inalaram colostro, o primeiro leite da mãe, ou baunilha, a oxigenação aumentou na região orbitofrontal, uma área do cérebro que processa odores. A resposta ao colostro era maior nos bebês mais novinhos[13]. Ou seja, nas primeiras horas e dias, o leite da mãe já “acende” uma área do cérebro ligada ao olfato.
O odor da mãe também mexe com o sistema de estresse. Num estudo japonês com 48 recém-nascidos que fizeram o teste do pezinho, só o odor do leite da própria mãe reduziu o choro e as caretas. O leite de outra mãe e a fórmula não tiveram esse efeito. E o cortisol na saliva, um marcador de estresse, subiu nos bebês do grupo controle, mas não nos que inalaram o leite da própria mãe[12].
Porter e Winberg resumem assim: mamando, o bebê aprende rápido a “assinatura olfativa” da própria mãe e passa a reconhecê-la só por esse odor, o que pode ser uma peça importante do vínculo[7]. Para entender o caminho do aroma até o cérebro, veja como a aromaterapia age no cérebro.
O odor do leite materno na dor do bebê
Bebês em UTI neonatal passam por muitos procedimentos que doem, como furo no calcanhar e coleta de sangue. O odor do leite materno é uma das medidas sem remédio testadas para aliviar essa dor.
Duas revisões com meta-análise, de 2025, juntaram esses ensaios:
| Revisão | Quem | O que encontrou |
|---|---|---|
| Bertol e colaboradores, 2025[14] | 8 ensaios, 451 prematuros | Menos dor, frequência cardíaca cerca de 9 batimentos mais baixa e oxigenação um pouco maior |
| Laleh e colaboradores, 2025[15] | 7 estudos, 478 recém-nascidos | Menos dor e melhor oxigenação; certeza da evidência baixa a muito baixa |
Os resultados vão na mesma direção, mas os estudos são pequenos e muito diferentes entre si, e os autores pedem estudos maiores para confirmar[14][15].
Nos estudos, a equipe coloca um pouco do leite da própria mãe num algodão perto do nariz do bebê, seguindo um protocolo. Não é óleo essencial e não é algo para improvisar sem combinar com a equipe.
O que isso significa na prática (e o que não significa)
O que os estudos sustentam: o odor natural da mãe é um sinal poderoso para o recém-nascido. Ele ajuda o bebê a achar a mama, pode acalmar e faz parte do começo do vínculo[1][5][7].
O que os estudos não sustentam:
- que o bebê precisa de algum aroma extra para se acalmar. Nenhum estudo testou óleo essencial em recém-nascidos com esse objetivo;
- que o odor do leite substitui o cuidado da equipe na dor. Ele é uma medida a mais, não um analgésico[14][15];
- que há algo errado com o bebê que não “escolheu” a mama: nos estudos, parte deles escolheu a outra[1][3].
Na prática, o que a família pode fazer é simples e não custa nada:
- Contato pele a pele logo após o parto, quando for possível, com o bebê no peito da mãe.
- Evitar perfumes, cremes perfumados e óleos nos seios, especialmente nos primeiros dias, para não mascarar o odor natural que guia o bebê[3].
- Nada de óleo essencial no bebê: nem na pele, nem no berço, nem no travesseiro, nem perto do rosto.
- Na UTI neonatal, pergunte à equipe sobre o uso do seu leite como conforto nos procedimentos.

Se o bebê chora muito ou tem cólica, leia óleo essencial para cólica do bebê, onde explico o que pode e o que não pode em cada idade.
Cuidados
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Óleo essencial no bebê recém-nascido | Não usar: nem na pele, nem inalado, nem no berço |
| Óleo, perfume ou creme perfumado nos seios | Evitar: podem mascarar o odor natural e chegar à boca do bebê[3] |
| Difusor no quarto do recém-nascido | Não usar |
| Mãe que usa aromaterapia para si | Longe do bebê, em outro ambiente, e nunca na região dos seios |
| Leite materno na dor | Só com a equipe de saúde, seguindo o protocolo do serviço[14] |
| Pele do recém-nascido | É mais fina e absorve mais: óleo essencial não é para ela[16] |
A pele do recém-nascido é mais fina e o fígado ainda está amadurecendo, por isso os manuais de segurança pedem cautela redobrada nessa fase[16]. A regra que sigo e ensino é direta: recém-nascido não usa óleo. Criança nunca ingere óleo. A via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria. Para saber a partir de quando e como os óleos podem entrar na rotina da família, leia óleo essencial para bebê: o que pode e o que não pode.
Quando procurar ajuda logo: se o recém-nascido tem febre, mama mal ou não mama, fica muito molinho, respira com esforço, tem a pele amarelada que piora ou chora de um jeito que não passa, procure o pediatra ou o pronto atendimento. E cuide também da mãe: se a tristeza for profunda, durar muitos dias ou vier com ideias de morte, procure o médico ou um serviço de saúde. O CVV atende pelo telefone 188, 24 horas.
Mitos e verdades
- “Recém-nascido não sente odores.” Mito. Logo após o parto, ele já escolhe a mama pelo odor natural[1].
- “O bebê reconhece a mãe pelo odor.” Verdade. Por volta do 6º dia, ele diferencia o odor da própria mãe do de outra mãe[2][7].
- “O bebê aprende aromas na barriga.” Verdade. A dieta da mãe na gestação mudou a reação do bebê ao anis e à cenoura[10][11].
- “Qualquer leite acalma igual.” Mito. No teste do pezinho, só o leite da própria mãe reduziu o choro e as caretas[12].
- “O odor do leite tira a dor do bebê.” Meia verdade. Reduziu sinais de dor nos estudos, mas a certeza ainda é baixa e não substitui o cuidado da equipe[14][15].
- “Lavar a mama com sabonete antes de amamentar é mais higiênico.” Mito. Os estudos sugerem evitar produtos que eliminam ou mascaram o odor natural da mama no começo da amamentação[3].
- “Um pouquinho de óleo de lavanda acalma o recém-nascido.” Mito perigoso. Recém-nascido não usa óleo essencial[16].
Na aromaterapia clínica
Gosto muito desses estudos porque mostram o olfato no seu estado mais puro: antes de qualquer frasco, existe o aroma da mãe.
Quando uma gestante ou uma mãe me procura, eu deixo isso claro logo no começo: o recém-nascido não usa óleo. O que eu posso fazer é cuidar dela. No pós-parto, muitas mães estão exaustas, ansiosas e dormindo pouco, e a aromaterapia pode entrar como tratamento complementar para a mãe, em outro ambiente, longe do bebê e nunca na região dos seios. Ela não substitui o tratamento médico e não faz diagnóstico médico, e se a mãe usa algum medicamento, ele só se reduz ou se suspende junto com o médico.
Também pergunto sobre perfumes e cremes da casa, porque menos é mais nessa fase. Para quem está grávida, recomendo ler óleo essencial na gestação antes de usar qualquer óleo. Em mais de 10 anos de atendimento clínico, aprendi que respeitar o tempo de cada fase é a parte mais importante do plano.
Se você quer um plano de aromaterapia para você na gestação ou no pós-parto, com uso pessoal e familiar seguro e o bebê protegido, o atendimento é online, com Camila Castellan e/ou aromaterapeutas da equipe.

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- O que é aromaterapia: como funciona, para que serve e o que diz a ciência
- Óleo essencial para bebê: pode usar? O que a ciência diz e o que ajuda no sono
- Óleo essencial para cólica do bebê: pode? O que é seguro e o que ajuda
- Memória olfativa: por que um aroma traz lembranças tão fortes
- Como a aromaterapia age no cérebro: olfato, emoção e memória
Perguntas frequentes
O recém-nascido reconhece a mãe pelo odor?
Sim. Logo após o parto, ele já é atraído pelo odor da mama, e por volta do 6º dia diferencia o odor da própria mãe do de outra mãe[1][2].
Como o bebê acha o peito logo depois do parto?
Em parte, pelo olfato. Num estudo, 22 de 30 bebês escolheram sozinhos a mama que não foi lavada[1].
O bebê sente aromas dentro da barriga?
Sim. O líquido amniótico carrega aromas da dieta da mãe, e os bebês expostos ao anis na gestação reagiram melhor a esse aroma ao nascer[10].
O que a mãe come muda o leite?
Sim. O leite carrega aromas da comida da mãe, e bebês expostos à cenoura pelo leite aceitaram melhor o cereal com cenoura depois[11].
O odor do leite materno acalma o bebê na dor?
Nos estudos, reduziu sinais de dor em procedimentos como o furo no calcanhar, mas a certeza da evidência ainda é baixa[14][15].
Posso colocar óleo essencial no berço do recém-nascido?
Não. Recém-nascido não usa óleo essencial, nem na pele, nem inalado, nem no berço ou no travesseiro.
Posso passar óleo ou perfume nos seios?
Não é recomendado. Além de chegar à boca do bebê, pode mascarar o odor natural que ajuda o bebê a achar o peito[3].
Precisa lavar a mama antes de cada mamada?
O banho do dia a dia é suficiente. Os estudos sugerem evitar produtos que eliminem ou mascarem o odor natural da mama no começo[3].
Bebê de mamadeira também reconhece a mãe?
O vínculo vai muito além do olfato. Nos estudos, bebês de mamadeira também mostraram atração pelo odor de leite humano[8], e o contato pele a pele ajuda todos os bebês.
A mãe pode usar aromaterapia no pós-parto?
Pode, como tratamento complementar e com orientação, longe do bebê e nunca nos seios.
Referências
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- Varendi H, Porter RH, Winberg J. Attractiveness of amniotic fluid odor: evidence of prenatal olfactory learning? Acta Paediatr. 1996;85(10):1223-7. doi:10.1111/j.1651-2227.1996.tb18233.x
- Varendi H, Porter RH, Winberg J. Natural odour preferences of newborn infants change over time. Acta Paediatr. 1997;86(9):985-90. doi:10.1111/j.1651-2227.1997.tb15184.x
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