Ficha de anamnese em aromaterapia: o que perguntar (com modelo) - Camila Castellan

A ficha de anamnese em aromaterapia é o roteiro da primeira consulta. Ela reúne a queixa principal e o objetivo da pessoa, o histórico de saúde, os medicamentos em uso, as alergias, a fase da vida (gestação, amamentação, idade), o sono, as emoções, a rotina e a relação com os aromas. É com essas informações que a aromaterapeuta escolhe óleos, vias de uso e diluições com segurança e consegue medir a evolução nos retornos. Abaixo está um modelo com as 10 seções que uma ficha clínica precisa ter.

Camila Castellan

Por Camila CastellanBiomédica, neurocientista e aromaterapeuta clínica · Publicado em 01/10/2026

Para que serve a anamnese na aromaterapia

Óleos essenciais são substâncias concentradas. O mesmo óleo que ajuda uma pessoa pode ser inadequado para outra, por causa de uma gestação, de uma doença como a epilepsia ou a asma, de uma pele sensível ou de um medicamento de uso contínuo.[2][3] A anamnese existe para que a escolha seja feita para aquela pessoa, e não pela fama do óleo.

Ela cumpre quatro funções:

Por isso, a anamnese é um dos pilares de uma formação em aromaterapia clínica, ao lado da química, da farmacologia e da segurança.

Modelo de ficha de anamnese: as 10 seções

O que a ficha precisa ter

1. Identificaçãonome, idade, contato, profissão, como chegou até você
2. Queixa e objetivoo que trouxe a pessoa e o que ela quer melhorar
3. Histórico de saúdediagnósticos, acompanhamentos, cirurgias
4. Medicamentosnome, dose, desde quando, quem prescreveu
5. Alergiasa plantas, cosméticos, perfumes e óleos
6. Fase da vidagestação, amamentação, menopausa, infância, velhice
7. Sonohorários, despertares, qualidade
8. Emoçõeshumor, estresse, acontecimentos recentes
9. Rotina e casatrabalho, atividade física, quem mora junto, animais
10. Aromascheiros preferidos, rejeitados e óleos que já usa

Veja o que perguntar em cada seção:

1. Identificação

Nome, data de nascimento, contato, profissão e quem indicou. Em atendimentos de crianças, registre também o nome do responsável, a idade exata e o peso.

2. Queixa principal e objetivo

“O que te trouxe aqui?”, “Desde quando isso acontece?”, “O que piora e o que melhora?” e “O que você gostaria que estivesse diferente daqui a algumas semanas?”. Peça uma nota de 0 a 10 para a intensidade da queixa. Essa nota vira a sua régua nos retornos.

3. Histórico de saúde

Diagnósticos já feitos por médicos, acompanhamentos em andamento (médico, psicólogo, outros terapeutas), cirurgias e internações. Peça também os exames recentes que a pessoa tiver: eles ajudam a entender o caso. Pergunte diretamente sobre condições que mudam a escolha dos óleos: epilepsia, asma e rinite, pressão alta, doenças de pele, alterações de coagulação e câncer em tratamento.[2][4][5]

4. Medicamentos e suplementos

Nome, dose, horário, há quanto tempo usa e quem prescreveu, incluindo fitoterápicos, florais e suplementos. Se a pessoa não lembra, peça uma foto da receita ou do rótulo. Vale pedir também os exames de sangue mais recentes, que ajudam a enxergar o quadro completo. A aromaterapeuta registra, mas não altera nem sugere suspender nenhum medicamento: essa decisão é sempre do médico.

5. Alergias e sensibilidades

Alergias a plantas, a cosméticos, a perfumes e reações anteriores a óleos essenciais, como vermelhidão, coceira ou dor de cabeça. Alguns óleos estão entre as causas conhecidas de dermatite de contato.[6]

6. Fase da vida

Gestação (e de quantas semanas), amamentação, tentativa de engravidar, menopausa. Em crianças e idosos, a escolha dos óleos e a diluição mudam.[2]

7. Sono

Horário em que deita e horário em que realmente consegue dormir (deitar é uma coisa, dormir é outra), despertares, a que horas acorda, como acorda (disposto ou “sem conseguir levantar”), sonhos e uso de telas à noite. Também com nota de 0 a 10. Uma pergunta que revela muito: como estão a motivação e a fome logo ao acordar?

8. Emoções e estresse

Como está o humor, o que tem gerado preocupação, acontecimentos recentes (luto, separação, mudança de emprego) e como a pessoa lida com o estresse. É aqui que aparecem muitos dos sinais de alerta que pedem encaminhamento.

9. Rotina e ambiente

Trabalho, horários, atividade física, exposição ao sol, horários das refeições (pula o café? chega com muita fome à noite? vontade de doce?), funcionamento do intestino, quem mora na casa (bebês, gestantes, pessoas com asma) e animais de estimação, já que alguns óleos difundidos no ambiente não são indicados perto de pets, principalmente gatos.

10. Relação com os aromas

Cheiros de que gosta e de que não gosta, memórias ligadas a aromas, óleos e produtos que já usa e como usa. Um aroma rejeitado dificilmente será usado, por melhor que seja a indicação.

Consentimento

Feche a ficha com um termo simples, assinado ou aceito por escrito, dizendo que a aromaterapia é um tratamento complementar, que não substitui o tratamento médico e que a avaliação da aromaterapeuta não substitui o diagnóstico médico.

As perguntas que não podem faltar (e por quê)

PerguntaPor que importa
Você usa algum medicamento?Alguns óleos podem somar efeito ou interagir com remédios, principalmente pela via oral.[2]
Você tem ou já teve convulsões?Óleos ricos em cânfora, tujona e 1,8-cineol podem favorecer crises em quem tem epilepsia.[4]
Você tem asma ou rinite?Compostos voláteis no ar podem desencadear sintomas em quem é sensível.[5]
Você está grávida ou amamentando?Alguns óleos devem ser evitados nessas fases, e a diluição é menor.[2]
Já teve reação na pele com cosméticos ou óleos?Indica mais risco de irritação e de alergia de contato.[6]
Para quem é o atendimento? Qual a idade?Crianças têm pele e vias aéreas mais sensíveis e pedem óleos e doses próprios da idade.[2]

Para aprofundar, veja quem não pode fazer aromaterapia.

Sinais de alerta: quando encaminhar

A avaliação da aromaterapeuta não substitui o diagnóstico do médico ou do psicólogo. Por isso, ela precisa reconhecer quando uma queixa pede avaliação de outro profissional antes, ou junto, do cuidado com os óleos. Encaminhe para o médico ou o psicólogo quando aparecer:

Encaminhe antes de seguir

Pensamentos de morte ou de se machucar. Oriente a buscar ajuda imediata. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.
Sintomas novos, intensos ou sem explicação. Dor no peito, falta de ar, perda de peso sem motivo, febre persistente.
Crise que impede a rotina. Ansiedade ou tristeza que tira a pessoa do trabalho, da escola ou da vida social.
Sem acompanhamento médico. Queixas importantes que nunca foram avaliadas por um médico.
Mudança de medicação por conta própria. Quem parou ou reduziu um remédio sem orientação precisa voltar ao médico.

Encaminhar não é perder o paciente. É o que dá segurança a ele e credibilidade ao seu trabalho.

Infográfico: quando a aromaterapeuta deve encaminhar ao médico ou ao psicólogo, 5 sinais de alerta na anamnese
Os sinais de alerta que pedem encaminhamento.

Anamnese não é só ficha: como conduzir a conversa

A ficha organiza, mas o que faz a anamnese funcionar é a escuta. Algumas práticas ajudam:

Um exemplo de como uma pergunta a mais muda todo o plano está no caso de dermatite atópica discutido em protocolo ou planejamento de uso.

Como usar a anamnese nos retornos

Da primeira consulta ao acompanhamento

Anamnesehistória, riscos e notas de 0 a 10
Objetivoo que melhorar, combinado com a pessoa
Planejamento de usoóleos, via, diluição e horários
Retornorepetir as notas e ouvir o que mudou
Ajustemanter, trocar ou encaminhar

Nos retornos, volte às mesmas perguntas e às mesmas notas. Se o sono estava em 3 e foi para 6, você tem um dado concreto. Se nada mudou, é hora de rever o plano, e não de acrescentar mais óleos. Atualize também a ficha sempre que houver um medicamento novo, uma gestação ou um diagnóstico.

É esse acompanhamento que permite trabalhar com planos com começo, meio e fim, em vez de sessões avulsas. Entenda como isso muda a sua prática em o que faz um aromaterapeuta.

Infográfico: a anamnese nos retornos, da primeira consulta ao acompanhamento em 5 etapas
Como a anamnese orienta os retornos e os ajustes.

Cuidados com os dados: LGPD

Informações sobre saúde são dados pessoais sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados.[7] Na prática, isso significa:

Para aromaterapeutas
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Onde se aprende a conduzir uma anamnese clínica

Uma ficha bem feita ajuda, mas não substitui o raciocínio clínico: saber o que fazer com cada resposta, principalmente quando a pessoa usa antidepressivos, ansiolíticos ou outros medicamentos. Muitas aromaterapeutas têm certificados e mesmo assim travam na hora do atendimento por falta dessa prática.

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Camila Castellan

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Perguntas frequentes

Existe uma ficha de anamnese oficial para aromaterapia?

Não. A aromaterapia faz parte das práticas integrativas do SUS desde 2018,[1] mas não existe um modelo oficial de ficha. Cada profissional monta a sua, e as 10 seções deste artigo cobrem o que uma ficha clínica precisa ter.

A ficha de anamnese para crianças é diferente?

Sim. Ela é feita com os pais e inclui a idade exata, o peso, o desenvolvimento, a rotina de manhã, tarde e noite, onde e a que horas a criança dorme, a alimentação (e a seletividade), a sensibilidade a sons, toques, tecidos e cheiros, as terapias, a escola e os medicamentos (com quem acompanha a criança). A escolha dos óleos e a diluição são próprias da idade, e óleos essenciais nunca devem ser ingeridos por crianças.

Dá para fazer a anamnese online?

Dá. A anamnese é uma conversa e funciona bem por vídeo. A ficha pode ser enviada antes, para a pessoa adiantar dados como medicamentos e alergias, e completada durante a consulta.

A aromaterapeuta pode analisar exames?

Pode. Os exames que a pessoa já tem ajudam a entender o caso e a planejar o uso dos óleos com mais segurança. Essa análise é feita do ponto de vista da aromaterapia e não dispensa o médico, que faz o diagnóstico médico e conduz o tratamento.

Preciso fazer anamnese para indicar um óleo para uma amiga?

Pelo menos as perguntas de segurança: medicamentos, gestação, epilepsia, asma, alergias e idade. Sem elas, a indicação fica no escuro.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 702, de 21 de março de 2018. Inclui novas práticas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), entre elas a aromaterapia.
  2. Tisserand R, Young R. Essential Oil Safety: A Guide for Health Care Professionals. 2. ed. Edimburgo: Churchill Livingstone/Elsevier; 2014.
  3. Posadzki P, Alotaibi A, Ernst E. Adverse effects of aromatherapy: a systematic review of case reports and case series. International Journal of Risk & Safety in Medicine. 2012;24(3):147-161. doi:10.3233/JRS-2012-0568
  4. Bahr TA, Rodriguez D, Beaumont C, Allred K. The effects of various essential oils on epilepsy and acute seizure: a systematic review. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2019;2019:6216745. doi:10.1155/2019/6216745
  5. Levy J, Neukirch C, Larfi I, Demoly P, Thabut G. Tolerance to exposure to essential oils exposure in patients with allergic asthma. Journal of Asthma. 2019;56(8):853-860. doi:10.1080/02770903.2018.1493601
  6. de Groot A, Schmidt E. Essential oils, part V: peppermint oil, lavender oil, and lemongrass oil. Dermatitis. 2016;27(6):325-332. doi:10.1097/DER.0000000000000218
  7. Brasil. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), art. 5º, II, e art. 11.