
Os óleos essenciais de cravo e de canela são dos mais fortes da aromaterapia. O cravo é rico em eugenol[1]; a canela muda conforme a parte da planta: o óleo da casca é rico em cinamaldeído, e o da folha, em eugenol[2]. O eugenol tem uso antigo na odontologia[5], e um gel de cravo reduziu a dor da picada da agulha na gengiva tanto quanto um anestésico tópico[4]. Estudos em laboratório sugerem ação contra fungos e bactérias[3][7], e precisam ser aprofundados em pessoas. O ponto central desta ficha é a segurança: esses óleos irritam, sensibilizam e podem causar queimadura química na pele[9][10], o eugenol interfere nas plaquetas[8] e a ingestão acidental por crianças já causou intoxicações graves[14][15]. É tratamento complementar e não substitui o tratamento médico.

Resumo rápido
Nesta ficha: de onde vêm o cravo e a canela, casca x folha, o que os estudos mostram, como usar e por que a canela pode queimar a pele.
De onde vêm o cravo e a canela e qual a sua composição
O cravo-da-índia é o botão floral seco de uma árvore tropical, o Syzygium aromaticum (também chamado de Eugenia caryophyllata), nativa das Ilhas Molucas, na Indonésia. O óleo essencial é obtido por destilação dos botões e também das folhas. O componente principal é o eugenol, usado em remédios, materiais dentários, alimentos e perfumes[1].
A canela vem de árvores do gênero Cinnamomum, da família Lauraceae. As mais conhecidas são a canela-do-ceilão, Cinnamomum zeylanicum (ou C. verum), e a canela-cássia, Cinnamomum cassia, muito comum como especiaria[3]. Da mesma árvore saem óleos da casca, da folha, da raiz, da flor e do fruto, e cada parte tem um perfil próprio, com mais de 80 compostos já identificados[2].
Casca ou folha: a diferença que mais importa
É o ponto que mais confunde. Na canela-do-ceilão, o óleo da casca é dominado pelo cinamaldeído, enquanto o óleo da folha é dominado pelo eugenol[2]. São óleos com aroma, uso e risco diferentes:
| Óleo | De onde sai | Componente principal | Perfil de risco na pele |
|---|---|---|---|
| Cravo (botão) | Botões florais do cravo-da-índia | Eugenol[1][7] | Irritante e sensibilizante; limite dérmico baixo[16] |
| Canela-casca | Casca do tronco | Cinamaldeído[2] | O mais agressivo: irrita, sensibiliza e pode queimar[9][10] |
| Canela-folha | Folhas da caneleira | Eugenol[2] | Parecido com o cravo; também pede diluição baixa[16] |
| Canela-raiz | Casca da raiz | Cânfora[2] | Pouco usado na aromaterapia |
Ao comprar, confira no rótulo o nome científico e a parte da planta (casca, bark; folha, leaf) e peça o laudo de composição. Veja como saber se o óleo essencial é puro e o que é quimiotipo.
Num óleo de cravo comercial analisado em laboratório, o eugenol representava 85,3% da composição[7]. Por isso o cravo e a canela-folha se parecem tanto em ação e em cuidados.
O que os estudos mostram sobre o cravo e a canela
A maior parte da pesquisa é de laboratório; os estudos em pessoas estão concentrados na odontologia. A tabela traz os principais achados:
| Estudo | Quem participou | Resultado | Nível de evidência |
|---|---|---|---|
| Gel de cravo na gengiva, 2006[4] | 73 adultos voluntários | Menos dor na picada da agulha que o placebo, igual ao gel de benzocaína 20% | Moderado: randomizado, cego para o participante |
| Revisão Cochrane, 2022[6] | Ensaios com pacientes com alvéolo seco | Curativos com eugenol fazem parte do tratamento; as comparações têm certeza muito baixa | Revisão sistemática |
| Eugenol na polpa do dente, 1992[5] | Revisão de estudos | Em baixa concentração, anti-inflamatório e anestésico; em alta, tóxico para o tecido | Revisão narrativa |
| Óleo de cravo contra fungos, 2009[7] | Fungos em laboratório | Inibiu Candida, Aspergillus e fungos de micose, inclusive cepas resistentes | Pré-clínico |
| Eugenol e plaquetas, 1993[8] | Plaquetas humanas em laboratório | Menos agregação das plaquetas | Pré-clínico |
| Revisões sobre a canela[2][3] | Estudos de laboratório e em animais | Ação antioxidante, antimicrobiana e anti-inflamatória | Pré-clínico |
Eugenol na odontologia
O eugenol entra em cimentos, curativos e materiais de uso dentário, e é o motivo de o cravo ter fama de “remédio para dor de dente”[1][5]. Uma revisão clínica explica o lado bom e o lado ruim: em baixas concentrações, o eugenol que chega à polpa do dente tem efeito anti-inflamatório e anestésico; em altas concentrações, ele é tóxico para as células, e a aplicação direta no tecido pode causar dano extenso[5].
No ensaio com 73 voluntários, um gel de cravo na gengiva reduziu a dor da picada da agulha tanto quanto o gel de benzocaína[4]. A revisão Cochrane sobre alvéolo seco, a dor intensa que pode surgir depois de uma extração, inclui curativos com eugenol entre os tratamentos usados no consultório, mas a qualidade das comparações ainda é baixa[6].
Atenção: isso é odontologia, com produto e dose controlados. Pingar óleo puro de cravo no dente em casa pode machucar a mucosa[5].

Ação contra fungos e bactérias
Em laboratório, o óleo de cravo e o eugenol inibiram fungos como Candida, Aspergillus e os que causam micose de pele, inclusive cepas resistentes ao fluconazol, com dano à membrana do fungo[7]. Esses dados sugerem um potencial interessante e precisam ser aprofundados em estudos com pessoas.
Para que o cravo e a canela são mais usados
Na aromaterapia, esses óleos são usados em situações bem específicas, quase sempre em pequena quantidade e em sinergia:
- Aroma de ambiente: o aroma quente e acolhedor da canela e do cravo é usado no difusor, em pouca quantidade e junto com cítricos. Veja óleo essencial no difusor.
- Dor muscular localizada, com orientação: o cravo e a canela-folha podem entrar em misturas muito diluídas, pelo efeito anestésico local do eugenol[1][5]. Veja óleo essencial para dor muscular e articular.
O que não fazer: usar cravo ou canela no lugar do médico ou do dentista para infecção, micose ou dor de dente.
Como usar os óleos de cravo e de canela
A regra aqui é ainda mais rígida do que com outros óleos: pouca quantidade, sempre diluído e nunca puro na pele. Para uso pessoal e familiar, em adultos sem contraindicações:
| Via | Como fazer | Atenção |
|---|---|---|
| Difusor | 1 gota de cravo ou de canela-folha junto com 2 a 3 gotas de um cítrico, por 30 a 60 minutos | Ambiente ventilado; longe de crianças pequenas e pets |
| Inalação direta | Não é a melhor escolha: o vapor irrita olhos e nariz | Prefira o difusor, em pouca quantidade |
| Pele: cravo e canela-folha | Sempre diluídos, abaixo do limite de Tisserand e Young[16] | Teste numa área pequena; nunca no rosto ou em mucosas |
| Pele: canela-casca | Evitar no uso pessoal e familiar | Limite dérmico baixíssimo[16]; só com orientação |
| Via oral | Não usar por conta própria | Veja o aviso abaixo |
Na pele, Tisserand e Young indicam limites máximos muito baixos: 0,5% para o óleo de botão de cravo e 0,07% para o óleo de casca de canela, por causa do risco de sensibilização[16]. Para a canela-folha, o limite também é baixo, na mesma faixa do cravo. Na prática, 1 gota de cravo em 20 ml de óleo carreador fica abaixo do limite. Já a casca de canela precisaria de uma gota em quase 70 ml; por isso, não a recomendamos na pele em uso doméstico. Veja como diluir óleo essencial e como escolher o óleo carreador.
Sobre a via oral: a via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria. Tempero é alimento; óleo essencial é muito mais concentrado, e a ingestão de poucos mililitros de óleo de cravo já causou lesão grave no fígado de uma criança[14]. Veja óleo essencial pode ser ingerido?.
Segurança: pele, queimadura, remédios, gestação, crianças e pets
Canela queima a pele?
Sim, pode queimar. O óleo de casca de canela é rico em cinamaldeído, um composto muito irritante[2]. Um centro de queimados nos Estados Unidos publicou o caso de uma queimadura química causada por óleo de canela na pele[9]. Em outro relato, uma mulher de 74 anos teve uma dermatite extensa, com bolhas, nos braços e nas pernas, menos de 24 horas depois de um banho de lama com óleo essencial de canela num spa; nos testes, ela reagiu ao óleo de canela, ao cinamaldeído e ao eugenol[12].
Na pele, a canela pode causar dois problemas diferentes. A irritação aparece logo, com ardor e vermelhidão, e depende da concentração. A sensibilização é uma alergia: a pessoa pode usar várias vezes sem nada e, de repente, passar a reagir a quantidades mínimas. Em clínicas dermatológicas de Helsinque, seis pacientes tinham alergia de contato à canela, e o cinamaldeído foi apontado como o principal alérgeno[10].
O cravo segue a mesma linha, um pouco mais brando. Um fisioterapeuta que usava óleos de massagem desenvolveu dermatite alérgica ocupacional ao eugenol, ao óleo de canela e ao óleo de cravo[11]. Até produtos “naturais” feitos em casa podem dar problema: uma adolescente teve dermatite alérgica depois de usar um esfoliante de açúcar com canela[13].
Na prática:
- nunca use cravo ou canela puros na pele, nem no rosto, nem em mucosas;
- respeite a diluição baixa[16] e faça um teste numa área pequena;
- não use em banhos de imersão ou escalda-pés[12];
- massoterapeutas e esteticistas, que manuseiam óleos todos os dias, têm risco maior[11]: use luvas na preparação.
Se arder, lave com bastante água e sabão neutro, aplique um óleo vegetal para diluir o que ficou e suspenda o uso. Bolhas, dor forte ou lesão que não melhora pedem avaliação médica. Veja alergia a óleo essencial.

Anticoagulantes e cirurgias
Num estudo com plaquetas humanas em laboratório, o eugenol reduziu a agregação das plaquetas, o primeiro passo da coagulação[8]. Por isso Tisserand e Young pedem cautela com óleos ricos em eugenol, como o cravo e a canela-folha, em quem usa anticoagulantes ou antiagregantes, tem distúrbio de coagulação ou vai fazer cirurgia[16]. Nesses casos, evite o uso na pele em áreas grandes e qualquer uso oral, e avise o médico. A medicação só se reduz ou se suspende junto com o médico. Veja óleos essenciais e medicamentos: interações.
Crianças
Este é o risco mais grave. Um menino de 15 meses que ingeriu cerca de 10 ml de óleo de cravo teve insuficiência grave do fígado e precisou de tratamento intensivo com N-acetilcisteína; os autores registraram um aumento de 14 vezes nos acidentes domésticos com produtos de aromaterapia no Reino Unido entre 1994 e 1999[14]. Um bebê de 7 meses que recebeu óleo de cravo por engano teve depressão do sistema nervoso e acidose[15]. Guarde os frascos fora do alcance; criança nunca ingere óleo. Recém-nascido não usa óleo essencial. Em crianças, não use cravo nem canela na pele sem orientação. Em caso de ingestão, procure o pronto-socorro. Veja óleo essencial para crianças.
Gestação e amamentação
Não encontramos estudos de segurança com cravo ou canela na gestação. Por prudência, nesse período evitamos esses óleos na pele e por via oral, e a inalação leve só com orientação. Veja óleo essencial na gestação.
Pets
Gatos são especialmente sensíveis a óleos ricos em fenóis, como o eugenol. Não aplique cravo ou canela em animais e use o difusor por pouco tempo, com porta aberta para o animal sair. Veja óleo essencial faz mal para gatos e cachorros?.
Cravo e canela não são fototóxicos[16]. Veja também quem não pode fazer aromaterapia.
Cravo, canela, melaleuca ou laranja-doce?
Comparando com outros óleos:
- Cravo: rico em eugenol[1]; tradição na odontologia[5]; irritante e com cuidado em quem usa anticoagulante[8][16].
- Canela-casca: rica em cinamaldeído[2]; o aroma mais marcante e o óleo mais agressivo para a pele[9][10][16].
- Melaleuca: quando o objetivo é um óleo para a pele com ação antimicrobiana estudada, costuma ser uma escolha mais segura. Veja a ficha da melaleuca.
- Laranja-doce: quando o objetivo é um aroma acolhedor no ambiente, é mais suave e combina bem com uma gota de cravo ou canela. Veja a ficha da laranja-doce.
Na prática, cravo e canela raramente são a primeira escolha para a pele; eles funcionam melhor no difusor, em sinergia.
Mitos e verdades
- “Óleo de cravo ajuda na dor de dente.” Meia verdade. O eugenol tem efeito anestésico e é usado pelo dentista[4][5], mas óleo puro na gengiva pode lesionar a mucosa[5], e dor de dente pede dentista.
- “Óleo de canela é tudo igual.” Mito. Casca e folha têm componentes principais diferentes[2].
- “Canela queima a pele.” Verdade. Já houve queimadura química com óleo de canela[9] e dermatite com bolhas[12].
- “Cravo e canela matam fungos e bactérias.” Em laboratório, sim[3][7]. Em pessoas, esses resultados ainda precisam ser confirmados, e esses óleos não curam infecções.
- “Por ser tempero, pode tomar gotas.” Mito. O óleo é muito concentrado; a ingestão já causou intoxicação grave em crianças[14][15].
- “Quem toma anticoagulante pode usar à vontade.” Mito. O eugenol interfere nas plaquetas[8], e Tisserand e Young pedem cautela[16].
- “Se não deu reação da primeira vez, nunca vai dar.” Mito. A alergia pode aparecer depois de vários usos[10][11].
Na aromaterapia clínica
Cravo e canela são óleos que eu respeito muito: aroma lindo, química potente. Antes de pensar neles, eu pergunto sobre alergia a perfumes, pele sensível, uso de anticoagulantes ou de anti-inflamatórios, cirurgias marcadas, gestação, crianças pequenas e gatos em casa.
Na maior parte das vezes, eles entram no difusor, em uma gota, com cítricos. Na pele, uso pouco, só cravo ou canela-folha, bem diluídos. A canela-casca, praticamente não uso na pele. E sempre explico a diferença entre o tempero da cozinha e o óleo do frasco.
Sempre como tratamento complementar: a aromaterapia não substitui o tratamento médico e não faz diagnóstico médico. Dor de dente, infecção ou lesão de pele pedem avaliação do dentista ou do médico.
Se você quer um plano com cravo, canela e outros óleos para o seu caso, com segurança, o atendimento é online, com Camila Castellan e/ou aromaterapeutas da equipe.

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Perguntas frequentes
Para que serve o óleo essencial de cravo?
É usado como aroma de ambiente e, muito diluído, em misturas para dor localizada. O eugenol, seu principal componente[1], tem uso na odontologia[5] e ação contra fungos em laboratório[7]. É tratamento complementar e não substitui o tratamento médico.
Qual a diferença entre óleo de canela da casca e da folha?
O da casca é rico em cinamaldeído e é o mais irritante; o da folha é rico em eugenol, como o cravo[2]. Confira sempre a parte da planta no rótulo.
Óleo de canela queima a pele?
Pode queimar. Já foi descrita queimadura química com óleo de canela[9] e dermatite com bolhas depois de um banho com o óleo[12]. Nunca use puro.
Qual a diluição segura do óleo de cravo na pele?
Tisserand e Young indicam no máximo 0,5% para o óleo de botão de cravo[16]. Na prática, 1 gota em 20 ml de óleo carreador fica abaixo desse limite.
Posso usar óleo de canela da casca na pele?
Em uso pessoal e familiar, não recomendamos. O limite indicado por Tisserand e Young é de apenas 0,07%[16], e o risco de irritação e alergia é alto[10].
Óleo de cravo serve para dor de dente?
O eugenol tem efeito anestésico e é usado pelo dentista[4][5]. Mas óleo puro na gengiva pode lesionar a mucosa[5]. Dor de dente pede avaliação odontológica.
Quem toma anticoagulante pode usar óleo de cravo?
Com cautela e orientação. O eugenol reduziu a agregação das plaquetas em laboratório[8], e Tisserand e Young pedem cuidado nesse caso[16]. A medicação só se reduz ou se suspende junto com o médico.
Óleo de cravo pode ser usado em crianças?
Só com orientação, e nunca por via oral. A ingestão acidental já causou lesão grave no fígado de uma criança[14] e intoxicação num bebê[15]. Guarde fora do alcance.
Grávida pode usar óleo de cravo ou de canela?
Não encontramos estudos de segurança na gestação. Por prudência, evite na pele e por via oral; inalação leve, só com orientação.
Cravo e canela matam fungos e bactérias?
Em laboratório, mostraram ação contra fungos e bactérias[3][7]. Esses resultados sugerem um potencial e precisam ser confirmados em pessoas; não substituem o tratamento de infecções.
Referências
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