
Em média, as mulheres se saem um pouco melhor que os homens nos testes de olfato, mas a diferença é pequena e varia muito de pessoa para pessoa. Uma meta-análise com milhares de participantes encontrou vantagem feminina na sensibilidade, na discriminação e na identificação de odores, sempre com efeitos pequenos[2]. Um estudo brasileiro de 2014, feito com bulbos olfatórios doados após a morte, contou cerca de 16,2 milhões de células no bulbo das mulheres e 9,2 milhões no dos homens[1]. Ao longo da vida da mulher, o olfato também oscila com o ciclo menstrual, a gestação e a menopausa, mas os resultados são variados[3]. Por isso, na aromaterapia, cada pessoa precisa ser avaliada do seu jeito, e a aromaterapia é tratamento complementar, que não substitui o tratamento médico.

Resumo rápido
Este é um artigo da série Por dentro do estudo. Você vai ver como pesquisadoras brasileiras contaram, célula por célula, o bulbo olfatório de homens e mulheres, o gráfico desse estudo, o que diz a maior meta-análise sobre o tema e como o olfato da mulher muda no ciclo menstrual, na gestação e na menopausa. E, no fim, o que isso significa para quem usa aromas no cuidado com a saúde.
Se você é uma pessoa que se incomoda com perfumes e odores fortes, vale ler também sensibilidade a cheiros.
A pergunta dos cientistas
Você provavelmente já ouviu que “mulher tem nariz melhor”. Na ciência, essa ideia é estudada há mais de cem anos, e a resposta é mais interessante do que um simples sim ou não[3].
Uma grande revisão de 2009, de Richard Doty, da Universidade da Pensilvânia, e Leslie Cameron, reuniu o que se sabia até então. A maioria dos estudos sugeria que, ao menos para alguns odores, as mulheres se saem melhor em detectar, identificar, diferenciar e lembrar aromas[3].
Mas ficavam duas perguntas: a diferença é grande ou pequena, já que alguns estudos grandes não a encontravam[2]? E de onde ela vem?
Uma pista curiosa: meninas antes da puberdade já identificam odores melhor que meninos, e mulheres com mais de 60 anos continuam à frente dos homens da mesma idade, mesmo com os hormônios em baixa nas duas fases[1][3]. Então não pode ser só o estrogênio do momento. Foi daí que um grupo brasileiro resolveu olhar para a estrutura do próprio cérebro[1].
Como o estudo foi feito
O estudo foi publicado em 2014 na revista PLoS One por Ana V. Oliveira-Pinto e colegas, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a participação do Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da Faculdade de Medicina da USP[1].
- Quem participou. Foram analisados bulbos olfatórios de 18 pessoas que doaram o cérebro para pesquisa após a morte, com autorização da família: 7 homens (de 58 a 92 anos) e 11 mulheres (de 55 a 94 anos), todos moradores da cidade de São Paulo[1].
- Quem ficou de fora. Só entraram pessoas sem sinais de demência e sem alterações relevantes no cérebro.[1]
- O que mediram. O bulbo olfatório é a primeira estação do olfato no cérebro, logo acima do nariz. Os pesquisadores usaram uma técnica chamada fracionador isotrópico: o tecido é dissolvido numa suspensão homogênea de núcleos de células, que são contados ao microscópio. Um marcador especial mostra quais núcleos pertencem a neurônios e quais a outras células, como as da glia, que dão suporte aos neurônios[1].
Por que contar células? Porque, segundo os autores, o número de neurônios diz mais sobre a “maquinaria” de uma região do cérebro do que o peso ou o volume[1].
Detalhe importante: o estudo não testou o olfato dessas pessoas em vida. Ele mostra estrutura, não desempenho.
O que encontraram
O resultado chamou atenção. Os bulbos pesavam praticamente o mesmo: 0,132 grama nas mulheres e 0,137 grama nos homens, sem diferença estatística. Mas, por dentro, eram bem diferentes[1].
| Medida | Mulheres | Homens |
|---|---|---|
| Peso médio do bulbo | 0,132 g | 0,137 g (diferença não significativa) |
| Total de células | 16,2 milhões | 9,2 milhões |
| Neurônios | 6,9 milhões | 3,5 milhões |
| Outras células (glia e demais) | 9,3 milhões | 5,7 milhões |
| Proporção entre glia e neurônios | Semelhante | Semelhante |
Nas contas dos autores, a diferença ficou entre 40% e 50% a favor das mulheres: 43,2% no total de células, 49,3% nos neurônios e 38,7% nas demais células. As diferenças continuaram quando os números foram corrigidos pelo peso do bulbo, ou seja, o bulbo feminino é mais denso em células[1].
No gráfico abaixo, as barras azuis mostram a média dos homens e as rosadas, a das mulheres. Em neurônios, em células que não são neurônios e no total, as barras femininas são mais altas, e os asteriscos indicam que as diferenças são estatisticamente significativas[1].

A proporção entre glia e neurônios foi a mesma nos dois sexos: o bulbo feminino não é organizado de outro jeito, é mais povoado[1].
E o desempenho no olfato? Aqui entra a meta-análise de Piotr Sorokowski e colegas, publicada em 2019 na Frontiers in Psychology. Eles reuniram estudos que usaram os dois testes de olfato mais conhecidos do mundo: as canetas com odores, que medem limiar, discriminação e identificação, e um teste de raspar e identificar aromas[2].
| O que foi medido | Participantes | Resultado |
|---|---|---|
| Limiar: a menor concentração percebida | 8.848 (5.065 mulheres) | Vantagem feminina pequena |
| Discriminação: diferenciar dois odores | 8.067 (4.496 mulheres) | Vantagem feminina pequena |
| Identificação com canetas | 13.670 (7.501 mulheres) | Vantagem feminina muito pequena |
| Identificação com teste de raspar | 7.154 (3.866 mulheres) | Vantagem feminina pequena, a maior entre os testes |
As mulheres se saíram melhor em todos os aspectos analisados. Mas os próprios autores fazem questão de frisar: os efeitos foram fracos. Em linguagem estatística, os efeitos ficaram entre 0,08 e 0,30, valores que os autores classificam como fracos e notavelmente pequenos[2]. Ou seja: muitos homens têm olfato tão bom quanto o de muitas mulheres, ou melhor.
O que isso muda no corpo e no cérebro
Se a diferença no bulbo é grande e a dos testes é pequena, como as peças se encaixam? Há algumas hipóteses.
Mais neurônios para processar a informação. Homens e mulheres parecem ter um número parecido de receptores de odor no nariz. A diferença estaria no processamento. Os autores sugerem que um bulbo com mais neurônios consiga processar mais informação e enviar mais sinal ao córtex piriforme e à amígdala[1]. É uma hipótese plausível, que ainda precisa ser testada medindo o olfato e o bulbo nas mesmas pessoas.
Os hormônios entram, mas não explicam tudo. Há sinais de que o estrogênio favorece e os androgênios reduzem o desempenho olfativo, mas a revisão de Doty e Cameron concluiu que a relação entre hormônios e olfato é complexa, e que associações simples entre o nível de hormônio no sangue e o olfato raramente aparecem[3]. Por isso, os autores do estudo brasileiro levantam a hipótese de que a diferença no número de células seja construída cedo, ainda no desenvolvimento, e não dependa só dos hormônios do momento[1][3].
A palavra também conta. Num estudo com 71 jovens, homens e mulheres não diferiram na sensibilidade. As mulheres foram melhores em identificar e lembrar odores familiares, e a vantagem na memória sumiu quando se descontou a habilidade de nomear os odores[15]. Parte da vantagem feminina parece estar em reconhecer e nomear o aroma.
A idade pesa mais do que o sexo. Num estudo clássico com 1.955 pessoas de 5 a 99 anos, as mulheres foram melhores em todas as idades, mas o grande divisor foi a idade: o desempenho atingiu o auge dos 20 aos 49 anos e caiu bastante depois dos 70. Mais da metade das pessoas de 65 a 80 anos tinha perda importante de olfato[5]. Os valores de referência mais recentes, com 9.139 pessoas, confirmam o padrão: o melhor desempenho fica entre 20 e 30 anos, e crianças com menos de 10 anos e adultos acima de 71 pontuam cerca da metade[4].

Para entender o caminho do aroma até as emoções, veja como a aromaterapia age no cérebro e memória olfativa.
O olfato ao longo da vida da mulher
O olfato da mulher parece acompanhar, em parte, as mudanças hormonais da vida, mas os estudos são menores e nem sempre concordam[3].
No ciclo menstrual. Num estudo, 17 mulheres fizeram os testes de olfato em três fases do ciclo, confirmadas por exames de sangue. Na fase lútea, a segunda metade do ciclo, a pontuação total de olfato foi maior[6]. Num estudo com 60 mulheres, a sensibilidade a um aroma almiscarado usado em perfumaria foi menor durante a menstruação e maior na ovulação, acompanhando os níveis de estradiol[16]. E outro estudo mostrou que o efeito pode depender do odor: mulheres na fase fértil foram mais sensíveis a um odor corporal masculino do que ao aroma de rosa, e com as usuárias de pílula aconteceu o contrário[13].
E a pílula? Num estudo de 2026 com 98 mulheres, usuárias e não usuárias não diferiram no olfato em geral, mas o uso mais longo se associou a menor sensibilidade, e um olfato melhor andou junto com mais bem-estar. Os autores tratam esses achados como preliminares[8].
Se você sente que tolera menos alguns odores na TPM, isso combina com a ideia de que o olfato oscila, mas não há um padrão único para todas as mulheres. O cuidado com os sintomas do ciclo está em aromaterapia na TPM e na cólica menstrual.
Na gestação. Muitas gestantes dizem que ficam com o “olfato de cão”, a chamada hiperosmia, e enjoam com odores que antes eram neutros.[9] Num estudo de 2014, as gestantes, sobretudo no primeiro trimestre, avaliaram o próprio olfato como mais apurado, mas nos testes a sensibilidade foi igual à de mulheres não grávidas[11].
A meta-análise de 2022, com 523 gestantes e 365 mulheres não grávidas, foi na mesma linha: não houve diferença no limiar, na discriminação nem no quanto os odores pareciam agradáveis. A única diferença foi uma identificação de odores um pouco pior na gestação[10]. Ou seja, o incômodo é real, mas parece vir mais da forma como o cérebro reage aos odores, com mais aversão e enjoo, do que de um nariz mais sensível[9][10].
Na menopausa. A reposição hormonal protege o olfato? Os resultados são mistos. Num estudo com 47 mulheres, estradiol com drospirenona melhorou a sensibilidade em seis meses, talvez por reduzir o inchaço no nariz[14]. Num estudo com 432 mulheres, a reposição melhorou só uma medida de memória e discriminação de odores[12]. O que pesa mais nessa fase continua sendo a idade[4][5].
O que isso significa na prática, e o que não significa
O que significa:
- em média, as mulheres têm uma pequena vantagem no olfato, e há uma base no cérebro que ajuda a explicar isso[1][2];
- o olfato muda ao longo da vida, com o auge entre os 20 e os 30 anos e queda depois dos 60, nos dois sexos[4];
- na mulher, ciclo, pílula, gestação e menopausa podem mexer na forma como os aromas são percebidos, de jeitos diferentes em cada pessoa[3][8].
O que não significa:
- Não significa que todo homem sente menos. Os efeitos são pequenos, e a variação entre duas pessoas do mesmo sexo é maior do que a diferença média entre os sexos[2].
- Não prova que mais células dão melhor olfato. O estudo brasileiro contou células, mas não testou o olfato das mesmas pessoas, e incluiu apenas 18 pessoas com mais de 55 anos[1].
- Não significa que a gestante tem nariz mais sensível. Nos testes, a sensibilidade não aumenta; o que muda é a reação aos odores[10][11].
Há ainda a genética. Um estudo na Nature mostrou que variações num único receptor, o OR7D4, mudam a percepção da androstenona, um composto do odor corporal: desagradável para uns, adocicada e floral para outros, imperceptível para alguns[7].
Esse é o ponto que mais interessa à aromaterapia: cada pessoa responde de um jeito aos aromas. O mesmo óleo pode acalmar uma pessoa e agitar outra, como explicamos em o mesmo óleo essencial acalma e agita.
Cuidados
Procure o médico ou o otorrinolaringologista se: a perda de olfato foi súbita, de um lado só, depois de uma pancada na cabeça, de uma infecção ou com outros sintomas neurológicos. Ela pode pesar no humor, como mostramos em perda de olfato e saúde mental.
Na gestação: enjoo com odores é comum, mas vômitos frequentes que impedem de comer ou beber pedem avaliação médica. Os óleos permitidos e as doses seguras nessa fase estão em óleo essencial na gestação.
Na menopausa: reposição hormonal é decisão médica. Medicação só se reduz ou se suspende junto com o médico.
Para quem é mais sensível: se aromas fortes dão dor de cabeça, náusea ou falta de ar, diminua a quantidade e ventile o ambiente. No uso pessoal e familiar, prefira a inalação em pouca quantidade e a diluição correta na pele. E nada de ingerir óleo por conta própria: a via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria.
Na saúde mental: se a mudança de olfato vem junto com tristeza intensa, falta de prazer ou pensamentos de morte, procure ajuda. Ligue para o CVV, no 188, ligação gratuita, 24 horas, ou procure um pronto-socorro.
Mitos e verdades
- “Mulheres têm olfato melhor que homens.” Verdade, em média, mas a diferença é pequena[2].
- “O bulbo olfatório das mulheres é maior.” Mito. Ele pesou o mesmo; o que mudou foi o número de células, bem maior nas mulheres[1].
- “A vantagem feminina é só hormonal.” Mito. Meninas e mulheres idosas também levam vantagem, e a relação com os hormônios é complexa[1][3].
- “Grávida sente tudo mais forte.” Em parte. Ela relata mais sensibilidade, mas os testes não mostram limiar mais baixo[10][11].
- “O olfato muda no ciclo menstrual.” Verdade para várias mulheres, mas os estudos não concordam sobre a fase de maior sensibilidade[6][16].
- “O olfato piora com a idade.” Verdade. A queda é mais forte depois dos 60 anos, nos dois sexos[4][5].
Na aromaterapia clínica
Gosto desse estudo porque é brasileiro e porque confirma o que vejo na prática: o olfato é muito individual. Na primeira consulta, pergunto quais aromas a pessoa ama, quais não suporta e se isso muda em algum momento.
Com mulheres, pergunto também sobre o ciclo, a pílula, a gestação e a menopausa. Uma sinergia que foi agradável numa fase pode incomodar em outra, e isso não é frescura: é o olfato mudando junto com o corpo. Com pessoas mais velhas, acompanho se a pessoa percebe o que inala, sem simplesmente aumentar a quantidade de óleo; veja aromaterapia para idosos.
A pessoa participa da escolha: testamos poucas opções, em pouca quantidade. Em mais de 10 anos de atendimento clínico, aprendi que o melhor óleo não é o da ficha técnica, é o que funciona para aquela pessoa, naquele momento. A aromaterapia é tratamento complementar, não substitui o tratamento médico e não faz diagnóstico médico.
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- Sensibilidade a cheiros: o que pode ser, autismo, TDAH e enxaqueca
- Memória olfativa: por que um aroma traz lembranças tão fortes
- Aromaterapia para cólica menstrual e TPM: o que os estudos mostram e como usar
- Por que o mesmo óleo essencial acalma uma pessoa e agita outra
Perguntas frequentes
Mulheres sentem os aromas melhor que os homens?
Em média, sim, mas a diferença é pequena. Uma meta-análise encontrou vantagem feminina em limiar, discriminação e identificação de odores, com efeitos fracos[2].
O que o estudo brasileiro de 2014 descobriu?
Que o bulbo olfatório das mulheres tinha cerca de 16,2 milhões de células, contra 9,2 milhões nos homens, apesar de pesar o mesmo[1].
O que é o bulbo olfatório?
É a primeira estação do olfato no cérebro, logo acima do nariz, e envia os sinais ao córtex piriforme e à amígdala[1].
Por que as mulheres têm olfato melhor?
Não se sabe ao certo. As hipóteses incluem mais neurônios no bulbo, o desenvolvimento do cérebro, os hormônios e a habilidade de nomear odores[1][3][15].
O olfato muda no ciclo menstrual?
Pode mudar, com melhor desempenho na fase lútea ou na ovulação em alguns estudos, mas varia conforme o odor e a mulher[6][13][16].
Anticoncepcional muda o olfato?
Em geral, não. Mas o uso mais longo da pílula se associou a menor sensibilidade num estudo de 2026[8].
Grávida tem o olfato mais sensível?
Ela sente que sim, mas os testes não mostram limiar mais baixo. Uma meta-análise viu apenas identificação um pouco pior na gestação[10][11].
A menopausa piora o olfato?
O que mais pesa é a idade, nos dois sexos[4]. Sobre a reposição hormonal, os estudos são mistos[12][14].
Com que idade o olfato é melhor?
Entre 20 e 30 anos. Acima dos 71, a pontuação média cai para cerca da metade[4][5].
Por que o mesmo aroma agrada a uma pessoa e incomoda outra?
Por idade, sexo, fase hormonal, história e genética: variações num único receptor já mudam a percepção de um odor[7].
Referências
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