
O treino olfativo nasceu de um estudo simples, publicado em 2009 pelo grupo do professor Thomas Hummel: 56 pessoas com perda de olfato, quatro frascos com aromas de rosa, eucalipto, limão e cravo, e 12 semanas de inalação duas vezes ao dia. Quem treinou melhorou nos testes de olfato; quem não treinou ficou igual[1]. Desde então, ensaios clínicos e meta-análises confirmaram o efeito, principalmente na perda de olfato depois de infecções virais, como a covid[2][5][7]. Exames de imagem mostram que o treino muda a forma como o cérebro processa os aromas[10][11][12]. O treino é seguro quando feito do jeito certo e entra como tratamento complementar, junto com a avaliação do otorrino.

Resumo rápido
Neste artigo da série Por dentro do estudo, você vai ver qual pergunta os cientistas fizeram, como o estudo de 2009 foi montado, o que encontraram, o que as pesquisas seguintes acrescentaram, o que muda no nariz e no cérebro e como fazer o treino com segurança. Se o seu interesse é a relação entre perda de olfato, humor e depressão, leia também perda de olfato e saúde mental.
A pergunta dos cientistas
Você provavelmente aprendeu que, quando o olfato vai embora, não há muito o que fazer além de esperar. Na ciência, a pergunta foi outra: e se o olfato pudesse ser treinado, como um músculo que volta a ganhar força com exercício?
A ideia tinha uma base. Os pesquisadores já sabiam que a exposição repetida a um odor aumenta a sensibilidade a ele, mesmo em pessoas com olfato normal. E sabiam que o sistema olfatório tem uma capacidade rara no sistema nervoso: os neurônios do nariz morrem e são substituídos ao longo da vida, e, depois de uma lesão, o epitélio olfatório se reconstrói e volta a se conectar ao bulbo olfatório[13].
A pergunta do grupo de Dresden, na Alemanha, foi direta: pessoas com perda de olfato que se expõem de forma estruturada a alguns aromas, todos os dias, melhoram o olfato como um todo, e não só para os aromas treinados[1]?
Como o estudo foi feito
O estudo foi publicado na revista The Laryngoscope em 2009[1]. O desenho foi este:
- Quem participou: 56 pessoas com perda de olfato, avaliadas pelo grupo da clínica de olfato e paladar da Universidade de Dresden. Quem tinha doença do nariz e dos seios da face, como rinossinusite, ficou de fora.
- Os grupos: 40 pessoas fizeram o treino; 16 não fizeram e serviram de comparação.
- O treino: duas vezes ao dia, por 12 semanas, os participantes inalavam quatro aromas intensos.
- O que foi medido: o olfato antes e depois, com os Sniffin’ Sticks, um teste com canetas de odor que mede três coisas: o limiar (a menor concentração percebida), a discriminação (diferenciar odores) e a identificação (dar nome ao odor).
| Aroma | Molécula usada no estudo | Família de aroma |
|---|---|---|
| Rosa | Feniletil álcool | Floral |
| Eucalipto | Eucaliptol (1,8-cineol) | Resinoso |
| Limão | Citronelal | Frutado |
| Cravo | Eugenol | Especiado |
Um detalhe que pouca gente conta: o estudo usou moléculas isoladas, que representam cada aroma, e não necessariamente óleos essenciais[1]. A escolha seguiu uma lógica: quatro famílias de aroma bem diferentes entre si, para estimular o sistema olfatório de formas variadas. Na prática, muita gente monta o kit com óleos essenciais dessas plantas, porque eles contêm essas mesmas moléculas ou outras parecidas. Veja óleo essencial de eucalipto e óleos de limão e bergamota.
O que encontraram
Depois de 12 semanas, o grupo que treinou teve melhora no resultado geral dos Sniffin’ Sticks e ficou mais sensível aos próprios aromas do treino. No grupo que não treinou, o olfato ficou igual[1]. A conclusão dos autores foi cuidadosa: a exposição estruturada e de curto prazo a aromas selecionados pode aumentar a sensibilidade olfatória.
Era um estudo pequeno e sem sorteio dos grupos, e por isso precisava ser confirmado. E foi. As pesquisas seguintes acrescentaram detalhes importantes:
| Estudo | Quem participou | O que mostrou |
|---|---|---|
| Hummel, 2009[1] | 56 pessoas com perda de olfato | Quem treinou 12 semanas melhorou; quem não treinou ficou igual |
| Ensaio multicêntrico, 2014[2] | 144 pessoas com perda pós-infecção | Aromas concentrados funcionaram melhor; com menos de 12 meses de perda, 63% melhoraram contra 19% |
| Treino modificado, 2015[3] | 85 pessoas com perda pós-infecção | Trocar os quatro aromas a cada 12 semanas, por 36 semanas, deu resultados melhores |
| Meta-análise, 2017[4] | 13 estudos | Efeito positivo em todas as habilidades do olfato; treinos mais longos foram melhores |
| Meta-análise pós-viral, 2021[5] | 16 estudos | Quem treinou teve 2,77 vezes mais chance de melhora clinicamente importante |
| Meta-análise, 2024[6] | 36 artigos | Efeito de moderado a grande; duração, idade e anosmia influenciaram o resultado |
| Meta-análise pós-covid, 2026[7] | 10 ensaios, 628 pessoas | Melhora pequena, mas significativa, no olfato e na qualidade de vida |
| Covid crônica, 2025[8] | 9 estudos, perda há mais de 16 semanas | Melhora no limiar, na discriminação e na identificação |
Repare num ponto: o tamanho do efeito muda de estudo para estudo. Nas pessoas com covid, a meta-análise de 2026 encontrou um efeito pequeno, e os autores pedem estudos maiores, com protocolos padronizados[7]. Isso não diminui o treino; mostra que ele ajuda, mas não faz milagre.
Outro motivo para ter um grupo de comparação: boa parte das pessoas recupera o olfato sozinha. Numa meta-análise com 3.699 pacientes com covid, as curvas de recuperação mostraram que cerca de 74% recuperaram o olfato em 30 dias, 86% em 60 dias, 90% em 90 dias e 96% em 180 dias. Os autores estimam que cerca de 5,6% podem ficar com alteração persistente[9]. Sem grupo de comparação, seria impossível saber o que é efeito do treino e o que é recuperação natural.

A figura acima vem de outro estudo, feito em Viena, que olhou para dentro do cérebro de sete pessoas sem olfato havia, em média, 4,6 anos. Antes do treino, a região que recebe os sinais do olfato (o córtex piriforme) estava conectada a várias áreas que não são do olfato. Depois de 12 semanas de treino, essas conexões se reorganizaram, e seis das sete pessoas melhoraram o limiar olfatório[10].
O que isso muda no corpo e no cérebro
O treino olfativo age em dois níveis, de baixo para cima e de cima para baixo. Os autores de uma das meta-análises sobre covid crônica chegaram a essa mesma conclusão: a recuperação parece envolver os dois caminhos[8].
No nariz. O epitélio olfatório tem células-tronco que produzem novos neurônios ao longo da vida, e essa renovação acelera depois de uma lesão. Os novos neurônios mandam seus prolongamentos até o bulbo olfatório e refazem as conexões[13]. A hipótese é que a exposição repetida aos aromas ajude esses neurônios novos a amadurecer e a se conectar.
No bulbo olfatório. O bulbo é a primeira estação do olfato dentro do crânio. Uma meta-análise de 2026 reuniu sete estudos com ressonância magnética, com 310 participantes, e encontrou um pequeno aumento do volume do bulbo depois do treino, tanto em pacientes como em pessoas saudáveis; quem não treinou não teve mudança[12].
No córtex. Em pessoas saudáveis que fizeram um treino olfativo intensivo por 6 semanas, a ressonância mostrou aumento da espessura de áreas que processam aromas, incluindo o córtex entorrinal, ligado à memória[11]. E, em pessoas sem olfato, o treino reorganizou as conexões do córtex piriforme[10].
E a neurogênese no bulbo? Aqui vale ser honesta com a ciência. Em camundongos e outros mamíferos, o bulbo olfatório recebe neurônios novos durante a vida toda. Em humanos adultos, um estudo que datou os neurônios do bulbo pelo carbono-14 encontrou pouquíssima ou nenhuma formação de neurônios novos ali depois do nascimento[14]. Ou seja, nas pessoas, a renovação de neurônios acontece sobretudo no nariz, e o que muda no bulbo e no córtex é principalmente a forma como as conexões se organizam. É plasticidade, e não um “bulbo novo”.

Esse é o mesmo raciocínio que explica por que aromas mexem com a memória e as emoções. Veja como a aromaterapia age no cérebro e memória olfativa.
O que isso significa na prática (e o que não significa)
O que os estudos permitem dizer:
- o treino ajuda, principalmente na perda de olfato depois de vírus, como gripe, resfriado e covid[2][5][7];
- começar cedo faz diferença: quem começou com menos de 12 meses de perda melhorou mais[2];
- aromas concentrados funcionaram melhor do que aromas fracos[2];
- mais tempo e variedade ajudam: treinos mais longos e a troca dos aromas a cada 12 semanas deram resultados melhores[3][4];
- o treino é recomendado no documento de consenso europeu sobre distúrbios do olfato para a perda pós-infecção[15].
O que os estudos não permitem dizer:
- que o treino cura toda perda de olfato. Ele não cura; aumenta as chances e o grau de melhora, e o efeito varia bastante[6][7];
- que existe um óleo “mágico”. O que importa é a variedade e a intensidade dos aromas, e não uma marca ou uma planta específica[1][3];
- que o treino substitui a avaliação médica. Algumas perdas de olfato têm causas que precisam de investigação e de outro tratamento[15].
Também é importante entender a diferença entre este post e o que fala de humor. A perda de olfato pesa na saúde mental, e esse lado está explicado em perda de olfato e saúde mental. Aqui, o foco é o treino em si: o que ele é, como foi testado e o que dá para esperar dele.
Como fazer o treino com segurança
Para adultos, em uso pessoal e familiar, o roteiro segue os estudos[1][2][3]:
- Passe pelo otorrino antes. Ele confirma a causa da perda e indica se o treino faz sentido no seu caso[15].
- Monte quatro frascos de vidro escuro, cada um com um algodão e algumas gotas de um óleo essencial de família diferente: floral, resinoso, frutado e especiado.
- Inale cada frasco por 10 a 20 segundos, com inalações curtas e tranquilas, a alguns centímetros do nariz, pensando no aroma que deveria estar ali.
- Faça duas vezes ao dia, de manhã e à noite, por pelo menos 12 semanas[1].
- Depois de 12 semanas, troque os quatro aromas por outros quatro e continue, se ainda houver perda[3].
- Anote a evolução, com uma nota de 0 a 10 por aroma, para conversar com o médico.
Os cuidados que não podem faltar:
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Óleo de cravo | Rico em eugenol, irrita pele e mucosas: só no algodão, nunca na pele[16] |
| Dentro do nariz | Nunca pingar óleo no nariz nem encostar o algodão na narina |
| Asma, enxaqueca, sensibilidade a aromas | Começar com distância maior e conversar com o médico |
| Eucalipto e crianças | Óleos ricos em 1,8-cineol não devem ser usados perto do rosto de crianças pequenas[16] |
| Crianças | Treino só com orientação do pediatra ou do otorrino |
| Gatos em casa | Guardar os frascos fechados e longe dos animais |
| Parosmia | Se um aroma ficar muito desagradável, trocar por outro da mesma família |
O treino é feito só por inalação. Criança nunca ingere óleo. A via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria. Veja óleo essencial pode ser ingerido?, quem não pode fazer aromaterapia e como saber se o óleo essencial é puro. Quem prefere levar o treino na bolsa pode usar um inalador pessoal para cada aroma.
Procure o médico com urgência se a perda de olfato for súbita e de um lado só, vier depois de uma pancada na cabeça ou junto com fraqueza, alteração da fala, da visão ou do equilíbrio. Se a perda vier com tristeza persistente ou pensamentos de morte, procure o médico e o psicólogo e, se precisar, ligue para o CVV no 188. A aromaterapia não faz diagnóstico médico, e qualquer medicação só se reduz ou se suspende junto com o médico.
Mitos e verdades
- “O treino olfativo foi inventado por aromaterapeutas.” Mito. Ele nasceu numa clínica de otorrinolaringologia, na Alemanha, em 2009[1].
- “Tem que ser rosa, eucalipto, limão e cravo.” Meia verdade. Esses são os aromas do estudo original, mas trocar por outros quatro aromas diferentes também funcionou, e até melhor[3].
- “Quanto antes começar, melhor.” Verdade. Quem começou com menos de 12 meses de perda teve mais melhora[2].
- “O treino faz nascer neurônios novos no cérebro.” Meia verdade. Neurônios novos surgem no nariz[13]; no bulbo dos adultos, quase não há neurônios novos[14], e o que muda são as conexões[10][12].
- “Funciona para todo mundo.” Mito. O efeito varia, e na covid foi pequeno, embora significativo[7].
- “Se o olfato voltou sozinho, foi o treino.” Nem sempre. A maioria das pessoas com covid recupera naturalmente em poucos meses[9].
Na aromaterapia clínica
Quando alguém me procura para o treino olfativo, a primeira pergunta é se já passou pelo otorrino. Depois, quero entender há quanto tempo o olfato mudou, se há parosmia e como está o dia a dia: comer, cozinhar, trabalhar, dormir.
Na escolha dos aromas, sigo a lógica do estudo de Hummel, com quatro famílias diferentes, mas ajusto para cada pessoa. Se o cravo virou um odor insuportável por causa da parosmia, troco por outro especiado. Se a pessoa tem asma, começo com distância maior e aromas mais suaves. Combinamos uma rotina que caiba na vida real, porque o treino só funciona se for feito duas vezes ao dia, por meses.
Nos retornos, olho as anotações, ajusto os aromas a cada ciclo e acompanho o humor, que costuma sofrer junto. Sempre como tratamento complementar, que não substitui o tratamento médico.
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- O que é aromaterapia: como funciona, para que serve e o que diz a ciência
- Perda de olfato e saúde mental: depressão, treino olfativo e quando procurar ajuda
- Memória olfativa: por que um aroma traz lembranças tão fortes
- Como a aromaterapia age no cérebro: olfato, emoção e memória
- Olfato e Alzheimer: perda de olfato pode ser sinal precoce?
Perguntas frequentes
O que é o treino olfativo de Hummel?
É o protocolo descrito em 2009: inalar quatro aromas intensos (rosa, eucalipto, limão e cravo), duas vezes ao dia, por 12 semanas. Quem treinou melhorou; quem não treinou ficou igual[1].
Treino olfativo funciona mesmo?
Meta-análises mostram melhora do olfato, principalmente na perda depois de vírus[4][5][6]. O efeito varia e, na covid, foi pequeno, mas significativo[7].
Quanto tempo leva para o treino olfativo fazer efeito?
Os estudos usam pelo menos 12 semanas. Treinos mais longos, de até 36 semanas, trocando os aromas, tiveram resultados melhores[3][4].
Preciso usar exatamente rosa, eucalipto, limão e cravo?
Não. O importante é ter quatro aromas de famílias diferentes e concentrados. Trocar os aromas a cada 12 semanas ajudou[2][3].
Treino olfativo serve para perda de olfato da covid?
Sim, há ensaios clínicos e meta-análises com resultados favoráveis, inclusive em perdas com mais de 16 semanas[7][8].
O treino olfativo muda o cérebro?
Estudos de imagem mostram reorganização das conexões do córtex olfatório[10], aumento da espessura de áreas que processam aromas[11] e pequeno aumento do volume do bulbo olfatório[12].
O treino faz nascer neurônios novos?
No nariz, sim: o epitélio olfatório se renova ao longo da vida[13]. No bulbo olfatório de adultos, quase não há neurônios novos[14]; o que muda são as conexões.
Posso pingar óleo essencial no nariz para treinar?
Não. O óleo fica sempre no algodão, dentro do frasco. O óleo de cravo, por exemplo, irrita pele e mucosas[16].
Se meu olfato voltou sozinho depois da covid, preciso treinar?
Não necessariamente. A maioria das pessoas recupera em poucos meses[9]. O treino é indicado para quem continua com perda.
Quando procurar o otorrino?
Sempre, antes de começar o treino. Com urgência se a perda for súbita, de um lado só, após pancada na cabeça ou com sinais neurológicos[15].
Referências
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- Damm M, Pikart LK, Reimann H, et al. Olfactory training is helpful in postinfectious olfactory loss: a randomized, controlled, multicenter study. Laryngoscope. 2014;124(4):826-31. doi:10.1002/lary.24340
- Altundag A, Cayonu M, Kayabasoglu G, et al. Modified olfactory training in patients with postinfectious olfactory loss. Laryngoscope. 2015;125(8):1763-6. doi:10.1002/lary.25245
- Sorokowska A, Drechsler E, Karwowski M, Hummel T. Effects of olfactory training: a meta-analysis. Rhinology. 2017;55(1):17-26. doi:10.4193/Rhin16.195
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- Albazee E, Aldawas G, Alzeeby M, et al. Olfactory training for COVID-19-related olfactory dysfunction: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Turk Arch Otorhinolaryngol. 2026;64(2):94-104. doi:10.4274/tao.2026.2026-3-27
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