
Em 2015, pesquisadores da Universidade de Medicina da Prefeitura de Kyoto, no Japão, pediram a 41 mulheres saudáveis que inalassem óleo essencial de bergamota com vapor de água por 15 minutos. Depois da bergamota, o cortisol na saliva ficou mais baixo do que depois do simples repouso, a atividade parassimpática, o sistema de “descanso” do corpo, aumentou, e as emoções negativas e o cansaço melhoraram[1]. Outros estudos com bergamota, com professores e numa sala de espera de saúde mental, foram na mesma direção[2][3], mas nem todo estudo com aromas encontrou queda de cortisol[7][8]. São estudos pequenos e de curta duração, e a bergamota não cura o estresse crônico. Ela pode ser um apoio complementar, inalada, e na pele exige cuidado: a bergamota prensada é fototóxica[15][16].

Resumo rápido
Neste artigo, da série Por dentro do estudo, você vai entender a pergunta que os cientistas fizeram, como o estudo com bergamota foi feito, o que ele encontrou, o que é o cortisol e o eixo do estresse, o que esse estudo não prova e como usar a bergamota com segurança.
A pergunta dos cientistas
Você aprendeu que a bergamota é “o óleo do bom humor”. Na ciência, a pergunta é mais específica: o aroma da bergamota muda alguma coisa que dá para medir no corpo, ou a melhora é só uma sensação agradável?
A bergamota é um cítrico cultivado principalmente na Calábria, no sul da Itália, considerado um híbrido de laranja-amarga e limão. O óleo da casca é usado há muito tempo em perfumes, cosméticos e alimentos, e os estudos clínicos com ele se concentram na aromaterapia para ansiedade e estresse[14].
Antes, quase tudo vinha de questionários ou de animais. Em ratos, a inalação de bergamota reduziu comportamentos ligados à ansiedade e diminuiu a corticosterona, o “cortisol” dos roedores, depois de uma situação de estresse[12]. Outro grupo viu efeito relaxante em ratos, diferente do efeito do diazepam[13]. Esses estudos sugerem um efeito sobre o sistema do estresse, e precisam ser aprofundados em pessoas.
Foi aí que o grupo japonês de Eri Watanabe decidiu medir, em pessoas, três coisas ao mesmo tempo: um hormônio do estresse (o cortisol), um sinal do sistema nervoso (a variabilidade da frequência cardíaca) e o humor relatado pelas próprias participantes[1].
Como o estudo foi feito
O estudo foi publicado em 2015 na revista Forschende Komplementärmedizin, uma revista científica alemã de medicina complementar[1]. O desenho foi este:
- Quem participou: 41 mulheres saudáveis, sem diagnóstico de doença.
- Tipo de estudo: cruzado e com ordem sorteada. Isso quer dizer que cada mulher passou por todas as situações, em ordem definida por sorteio, e foi comparada com ela mesma.
- As três situações, de 15 minutos cada: só repouso; repouso com vapor de água; e repouso com vapor de água e óleo essencial de bergamota.
- O que mediram: logo depois de cada situação, coletaram saliva para dosar o cortisol. Em seguida, as participantes descansaram 10 minutos e responderam a questionários de humor, de ansiedade e de cansaço.
- O sinal do coração: durante os 15 minutos e durante os 10 minutos de descanso, os pesquisadores registraram a variabilidade da frequência cardíaca, de onde se calcula um índice da atividade parassimpática.
O detalhe mais inteligente está no grupo do vapor de água. Ele serve para separar dois efeitos: o de ficar parada respirando um vapor morno e o do aroma da bergamota em si.
O que encontraram
Os resultados principais foram estes[1]:
- O cortisol na saliva foi diferente entre as três situações. Na comparação direta, ele foi mais baixo depois da bergamota do que depois do repouso sozinho.
- Nos 10 minutos de descanso depois do experimento, o índice de atividade parassimpática foi mais alto com a bergamota do que com o vapor de água.
- As pontuações de emoções negativas e de cansaço melhoraram depois da bergamota.
Repare num detalhe honesto: na queda do cortisol, a diferença significativa foi contra o repouso sozinho, e não contra o vapor de água. Ou seja, parte do efeito pode vir do ritual de parar e respirar vapor. Já no sinal do coração, a bergamota foi melhor do que o vapor de água.
Veja como esse estudo conversa com outros que mediram estresse com bergamota e com outros aromas:
| Estudo | Quem participou | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Bergamota com vapor de água[1] | 41 mulheres saudáveis | Cortisol mais baixo que no repouso; mais atividade parassimpática; menos emoções negativas e cansaço |
| Spray de bergamota a 2%[2] | 54 professores do ensino fundamental em Taiwan | Depois de 10 minutos: pressão e frequência cardíaca menores, mais sinais de “modo descanso” |
| Bergamota na sala de espera[3] | 57 pessoas num centro de saúde mental | 15 minutos de aroma: sentimentos positivos 17% maiores que no controle |
| Bergamota antes de cirurgia ambulatorial[9] | 109 pacientes | Maior redução da ansiedade do que com vapor de água |
| Bergamota antes de cirurgia[8] | 60 pacientes | Menos ansiedade e menos alfa-amilase; o cortisol não foi diferente entre os grupos |
| Lavanda e alecrim[6] | 22 voluntários saudáveis | Cheirar por 5 minutos reduziu o cortisol na saliva |
| Lavanda e limão[7] | 56 voluntários saudáveis | O limão melhorou o humor, mas nenhum aroma alterou o cortisol de forma consistente |
O estudo com professores é interessante porque mostra um grupo de trabalho muito estressante. Mas ele comparou cada pessoa antes e depois do spray, sem um grupo que recebesse um spray sem aroma[2]. O estudo da sala de espera aconteceu num lugar real de atendimento, com semanas de difusor com bergamota alternadas com semanas de difusor com água destilada, mas o grupo de comparação ficou bem menor do que o grupo do aroma, e dois dos autores trabalhavam para uma empresa que vende óleos essenciais[3].
O cortisol também apareceu em estudos com outros aromas. Num ensaio com 22 adultos submetidos a tarefas mentais difíceis, o grupo que inalou óleo de copaíba teve queda do cortisol na saliva durante as tarefas, enquanto o grupo controle, que inalou óleo de jojoba, teve aumento[10]. A figura abaixo, desse estudo, mostra como os cientistas enxergam o cortisol num gráfico:

Uma revisão sistemática de 2023 reuniu 76 estudos sobre inalação de aromas para estresse e ansiedade em ambientes clínicos, com 6.539 pacientes. Em 42% dos ensaios, os pesquisadores mediram também sinais do corpo, como pressão, frequência cardíaca ou cortisol na saliva, e mais de 70% dos estudos relataram efeito positivo sobre a ansiedade. Mas os autores alertam para falhas: falta de dados de segurança, espécie da planta mal descrita e dose pouco clara[11]. Se você se interessa pela copaíba, veja óleo essencial de copaíba.
O que isso muda no corpo e no cérebro
O que é o cortisol. O cortisol é um hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais, que ficam em cima dos rins. Ele é o último elo de uma cadeia chamada eixo HPA: hipotálamo, hipófise e adrenal (o outro nome das suprarrenais)[4].
Funciona assim. Diante de uma ameaça, o hipotálamo, uma pequena região na base do cérebro, libera o hormônio liberador de corticotrofina (CRF). O CRF avisa a hipófise, que libera o ACTH no sangue. O ACTH chega às suprarrenais, que liberam o cortisol. O cortisol mobiliza energia para o corpo reagir e, quando já há o suficiente, ele mesmo “avisa” o cérebro para desligar o alarme[4].
Esse eixo não trabalha sozinho. Ele recebe sinais de áreas do sistema límbico, ligadas à emoção e à memória, e trabalha junto com o sistema nervoso simpático, o do “alerta”, e com o parassimpático, o do “descanso”[4]. É aqui que o aroma entra na história: o sinal do olfato chega rápido justamente a essas áreas emocionais. Para entender esse caminho, veja como a aromaterapia age no cérebro.
Por que medir na saliva. A saliva é fácil de coletar, sem agulha, e o cortisol salivar virou um marcador muito usado em pesquisas de estresse. Mas é uma medida indireta, e vários fatores psicológicos e biológicos mudam o resultado. Por isso, o cortisol da saliva nem sempre acompanha o do sangue[5]. Uma única medida, logo depois de 15 minutos, é uma “fotografia” do momento, e não um retrato do estresse da semana.
O sinal do coração. O coração não bate como um metrônomo. O intervalo entre um batimento e outro varia um pouco, e parte dessa variação, chamada de alta frequência, reflete o freio do sistema parassimpático. Quando esse índice sobe, o corpo está mais perto do “modo descanso”. Foi isso que aumentou com a bergamota, em comparação com o vapor de água[1], e também no estudo com professores[2].
E a química da bergamota? O óleo é rico em limoneno, acetato de linalila e linalol[14]. O acetato de linalila e o linalol são os mesmos componentes que aparecem na lavanda. Em ratos, a bergamota inalada reduziu a corticosterona depois do estresse[12], o que sugere uma ação direta sobre o eixo HPA. Esses resultados em animais precisam ser aprofundados, e mais estudos são necessários em pessoas.
O que isso significa na prática (e o que não significa)
O que o estudo sustenta: 15 minutos de pausa inalando bergamota podem ajudar o corpo a sair do modo de alerta, com efeito mensurável num hormônio e no sinal do coração, pelo menos em mulheres saudáveis e no curto prazo[1].
O que o estudo não sustenta:
- que a bergamota “baixa o cortisol” de forma duradoura. Ninguém foi acompanhado por semanas;
- que ela trata ansiedade, depressão ou burnout. As participantes eram saudáveis;
- que o efeito vale igual para homens, idosos ou pessoas doentes. Só mulheres participaram;
- que o efeito é só do aroma. Não dá para “cegar” quem está sentindo o aroma da bergamota, e a expectativa conta. Num estudo que testou exatamente isso, o humor melhorou com o limão mesmo sem informação prévia, mas o cortisol não mudou[7].
A aromaterapia é tratamento complementar, não substitui o tratamento médico e não faz diagnóstico médico. Se você já usa algum medicamento para ansiedade, sono ou humor, ele só se reduz ou se suspende junto com o médico. Se o estresse virou exaustão, leia também burnout e aromaterapia.
Para adultos que querem experimentar uma pausa com bergamota, inspirada no estudo:
- Escolha o momento: uma pausa de 15 minutos, sentada, longe da tela, no meio ou no fim do dia.
- Prepare o aroma: 2 a 3 gotas num inalador pessoal, ou 3 a 4 gotas num difusor ultrassônico com água, ligado por 15 a 30 minutos.
- Respire devagar: inspire pelo nariz e solte o ar mais devagar do que puxou. A expiração longa estimula o freio parassimpático.
- Observe o corpo: ombros, mandíbula, respiração.
- Anote: como você estava antes e depois, numa nota de 0 a 10. Isso ajuda a ver se a bergamota faz sentido para você.

Veja como montar o seu em inalador pessoal de aromaterapia e mais opções em óleo essencial para estresse.
Cuidados
O cuidado mais importante com a bergamota é a pele. O óleo comum, obtido por prensagem a frio da casca, contém furocumarinas, principalmente o bergapteno. Na pele que recebe sol ou luz ultravioleta, ele pode causar queimaduras com bolhas e manchas escuras. Dermatologistas da Áustria descreveram dois casos de bolhas depois do uso de óleo de bergamota seguido de ultravioleta; numa das pacientes, o óleo nem foi passado na pele, só evaporado numa sauna antes de uma sessão de bronzeamento artificial[15].
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Bergamota prensada na pele que vai ao sol | No máximo 0,4%, ou evitar sol e ultravioleta por 12 horas na área[16] |
| Bergamota FCF (sem furocumarinas) | Não é fototóxica; diluição comum, em torno de 1% no corpo[16] |
| Inalação | É a via dos estudos[1][2][3]; evite sauna e bronzeamento logo depois[15] |
| Vapor com água quente | Cuidado com queimaduras; prefira inalador ou difusor |
| Crianças | Sem inalação direta perto do rosto; só com orientação |
| Gestação e amamentação | Só com orientação de aromaterapeuta com formação clínica |
| Gatos e cães em casa | Difusor por pouco tempo e com porta aberta para o animal sair |
O óleo de bergamota não é para ingerir. A via oral é a via mais controversa e de maior risco, e só deve ser usada com o acompanhamento de uma aromaterapeuta com formação clínica, nunca por conta própria. Criança nunca ingere óleo, e recém-nascido não usa óleo. Veja óleos essenciais fototóxicos, a ficha do limão e da bergamota, como diluir óleo essencial e óleo essencial faz mal para gatos e cachorros?.
Quando procurar ajuda logo: estresse que não passa, insônia por semanas, crises de choro, palpitações frequentes ou exaustão que impede o trabalho pedem avaliação de um médico ou psicólogo. Se surgirem ideias de morte, procure ajuda imediatamente: o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas. Dor no peito ou falta de ar intensa pedem atendimento de emergência.
Mitos e verdades
- “A bergamota baixa o cortisol.” Meia verdade. Num estudo, o cortisol ficou mais baixo do que no repouso sozinho, logo depois de 15 minutos[1]. Em outros, o cortisol não mudou[7][8].
- “O efeito é só psicológico.” Mito. Além do humor, mudaram sinais do corpo, como o índice parassimpático do coração[1][2].
- “Qualquer aroma agradável faz o mesmo.” Não sabemos. Lavanda, alecrim e copaíba também tiveram resultados em cortisol[6][10], mas cada estudo usou um método diferente[11].
- “Cortisol é sempre vilão.” Mito. Ele é essencial para mobilizar energia; o problema é o alarme que não desliga[4].
- “Cortisol na saliva mostra o meu nível de estresse.” Mito. É uma medida indireta e muda com muitos fatores[5].
- “Bergamota inalada não tem risco nenhum com sol.” Mito. Há relato de bolhas depois de bergamota evaporada numa sauna seguida de bronzeamento[15].
- “A bergamota FCF é mais segura na pele.” Verdade, porque não tem o bergapteno, que causa a fototoxicidade[16].
Na aromaterapia clínica
Quando uma pessoa chega dizendo que vive estressada, eu não começo pelo óleo. Começo perguntando como é esse estresse: se é um pico antes de uma situação, se é um cansaço que não passa com o fim de semana, se vem com insônia, irritação ou tristeza. Isso muda o plano e, às vezes, o encaminhamento.
A bergamota entra bem quando o estresse vem com irritação, tensão e humor baixo, e quando a pessoa precisa de uma pausa de verdade no dia. O estudo de Watanabe me ajuda a explicar isso: não é só “um aroma gostoso”, é uma pausa que o corpo consegue registrar. Também deixo claro o limite: 15 minutos de bergamota não resolvem uma rotina que adoece.
Antes de indicar, sempre pergunto sobre medicamentos, gestação, crianças e animais em casa e, principalmente, se a pessoa pretende usar na pele e tomar sol. Se for para a pele, indico a bergamota FCF. No retorno, quero saber em que momentos usou, como estava antes e depois e se a pausa virou rotina. Em mais de 10 anos de atendimento clínico, aprendi que o aroma funciona melhor quando tem hora marcada e um propósito claro.
Se você quer um plano de aromaterapia para lidar melhor com o estresse, o atendimento é online, com Camila Castellan e/ou aromaterapeutas da equipe.

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- O que é aromaterapia: como funciona, para que serve e o que diz a ciência
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Perguntas frequentes
Bergamota baixa o cortisol?
Num estudo com 41 mulheres saudáveis, 15 minutos inalando bergamota com vapor de água deixaram o cortisol na saliva mais baixo do que o repouso sozinho[1]. Outros estudos não viram mudança no cortisol[7][8].
O que é cortisol?
É um hormônio das glândulas suprarrenais, o último elo do eixo do estresse, que mobiliza energia para o corpo reagir[4].
O que é o eixo HPA?
É a cadeia hipotálamo, hipófise e adrenal: o hipotálamo libera CRF, a hipófise libera ACTH e as suprarrenais liberam cortisol[4].
Quanto tempo de inalação o estudo usou?
15 minutos de bergamota com vapor de água, seguidos de 10 minutos de descanso[1].
A bergamota trata o estresse crônico ou o burnout?
Não cura. Os estudos foram de curta duração e com pessoas saudáveis[1][2]. Ela pode ser um apoio complementar dentro de um plano.
Bergamota ajuda na ansiedade?
Há estudos com menos ansiedade antes de cirurgias[8][9] e mais sentimentos positivos numa sala de espera de saúde mental[3]. Não substitui o tratamento.
Posso passar bergamota na pele?
A prensada, no máximo a 0,4% na pele que vai ao sol, ou sem sol por 12 horas. A versão FCF não é fototóxica[16].
Bergamota inalada mancha a pele?
O risco é baixo, mas há relato de bolhas depois de bergamota evaporada numa sauna seguida de bronzeamento[15]. Evite ultravioleta logo depois.
Medir cortisol na saliva mostra quanto estresse eu tenho?
Não exatamente. É uma medida indireta, que muda com muitos fatores, e uma única dosagem é só um momento[5].
Outros óleos também mexem com o cortisol?
Lavanda, alecrim e copaíba tiveram resultados em estudos pequenos[6][10], mas os métodos variam muito e mais estudos são necessários[11].
Referências
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- Han X, Gibson J, Eggett DL, Parker TL. Bergamot (Citrus bergamia) essential oil inhalation improves positive feelings in the waiting room of a mental health treatment center: a pilot study. Phytother Res. 2017;31(5):812-6. doi:10.1002/ptr.5806
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- Tisserand R, Young R. Essential Oil Safety: A Guide for Health Care Professionals. 2. ed. Edimburgo: Churchill Livingstone/Elsevier; 2014.
